Você sabe a diferença entre estar junto e estar com o outro?

Maria Lúcia Pellegrinelli*

Temos uma frase que define de maneira simples e objetiva o conceito de inclusão. Vejamos:

Inclusão é incondicional.

Não sujeita a restrições, que não estabelece condições.

No livro Exercício do Respeito, tem uma passagem em que é possível perceber a clareza e a convicção desta afirmativa:

“A inclusão é uma questão de PRINCÍPIO. Não dá para com jeitinho incluir ou incluir mais ou menos. Ouço dizer que é muito difícil conviver com pessoas com deficiências, que é complicado entendê-las, educá-las, aceitá-las, mas que temos o dever de nos relacionarmos com elas. Façamos um exercício extremamente rico, vamos ter um olhar às avessas para isso: difícil é não entendê-las, não educá-las, não aceitá-las. Eu vou além: temos mais que o DEVER, temos o DIREITO de nos relacionarmos com elas. Isso muda tudo. Quem se dispõe a experimentar está se dando a chance fantástica de crescer, pois, ao se ver espelhado no outro, descobre a riqueza do humano.”¹

Ao desenvolvermos nossa capacidade de receber o outro, nos damos o privilégio de conviver com as diferenças. A amplitude que alcançamos ao enxergar que o outro é essencialmente diferente nos dá a dimensão do que é compartilhar a vida. Independentemente de quem seja este outro, de sua cor, sua raça, sua condição mental, motora. Qualquer que seja este outro ele é ímpar.

Ao depararmos com o outro constatamos a diversidade humana e, sobretudo, nossa frágil condição de que somos todos humanos. Aí temos algo fascinante: tão diversos e tão iguais. Com tantas necessidades distintas e tão semelhantes.

Li, escrito em uma camisa de malha branca, com letras pretas e fortes: EU SOU VOCÊ, VOCÊ SOU EU.

A inclusão essencialmente nos traz esta verdade: diante de nossa humanidade reconhecemos que todos somos um.

Estar com o outro nos faz buscar conhecê-lo, saber de suas desventuras, de seus sonhos. Faz com que seja possível recebê-lo, acolhê-lo seja qual for sua condição. Isso é incluir. Receber o outro, interagir, por vezes, nos dá a chance de encontrar dentro de nós mesmos o que não raramente buscamos mundo afora. Pois, no encontro está a possibilidade de reconhecermos o que somos, almejamos, conquistamos.

O grande ganho da inclusão é viver a experiência da diferença. Parece contraditório, mas é nesta diferença que encontramos nossa igualdade: ao nos vermos no outro, não no lugar dele.

Você não pode ter um lugar no mundo, sem considerar o do outro, valorizando o que ele é e o que ele pode ser. E assim, se valorizando.

A inclusão provoca ações transformadoras porque o sucesso não é somente da pessoa com deficiência, mas de todos os envolvidos, do educador, da família, da comunidade como um todo.

A especialização para atender às necessidades de todas as pessoas e não apenas de algumas delas, as especiais, deve ser a meta da capacitação profissional em todos os níveis de formação.

“Cada pessoa é um pacote indivisível de talentos e de limitações combinados em proporções variáveis em função das oportunidades que a vida traz desde a concepção. Jovens, adultos e idosos são mais ou menos talentosos, ou limitados, dependendo dos recursos que o meio ambiente oferece.”²

Diante disso, o desafio de viver a inclusão no trabalho se faz mais instigante: aprender a estimular, a oferecer oportunidades. Especializar em trabalhar com toda e qualquer pessoa. Especializar no humano.

Oferecer o que é útil, enfrentar e viver a vida como um ser livre, criativo e justo. Este deve ser nosso objetivo. A convivência centrada nas possibilidades e não nas dificuldades das pessoas é uma abordagem efetiva.

Concluindo volto à pergunta inicial: podemos estar junto do outro quando estamos em um cinema, num ponto de ônibus, num barzinho. Um aglomerado de pessoas que podem nem pousar os olhos umas sobre as outras. Porém, estar com o outro implica em interação, em comunicação. Nisso consiste a convivência.

Se a inclusão não se dá deste para aquele, deste sobre aquele, mas sim deste com aquele, vamos estar uns com os outros?

¹ – Exercício do Respeito, Mazza Edições, 2004.
² – Maria Teresa Eglér Mantoan.

 

*Fisioterapeuta, educadora inclusiva, autora do livro Exercício do Respeito.

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