Dona da casa da vida

– Sabe quem é a dona desta casa?

– Sabe quem manda aqui?

transponder_love_wallpaper_by_anasyEu chegava à sua casa, no meio da manhã de uma terça-feira, e ela olhava séria e provocativa para a pessoa que cuida da casa e dela. Perguntava com força na voz, querendo fazer valer quem ela é. A contratada para ali trabalhar vendo-se no direito de mandar em como e o que fazer com o intuito de limpar, de organizar, de cozinhar e de tudo o mais que demanda uma casa. Esquecendo-se do detalhe fundamental: a dona da casa existe. Vive.

Temos quase sempre a impressão que uma pessoa com diagnóstico de Alzheimer já traz escrita na testa sua perda de autonomia, de identidade, de independência. Como se a doença se instalasse e ligeiramente já tomasse conta da casa e se fizesse dona.

Mas a verdade é que ela vem sorrateira, dissimulada nas palavras deslocadas, na risada fora de hora, no sumiço do sabonete que certamente desceu com a descarga no vaso sanitário. Ela instala-se, porém a dona da casa ainda tem força para reivindicar seu lugar. E apodera-se dele com desejo de vida.

Essa mesma pessoa que fala bravo, do alto de sua lucidez oscilante, me oferece flores arrancadas pela sua mão firme, do jardim do prédio ou da jardineira da janela da sala de jantar. Quase toda vez que nos encontramos. Não diz palavra, só me oferece. Seu gesto é tudo. Leva o olhar, que ora desamparado, ora sustentado pela vitalidade, desabrocha na azaléia coral que trago comigo.

Murcha entre as páginas do meu livro de cabeceira, está viva. Muito viva.

 

Alzheimer? Já acabou

leaves_wallpaper_by_ematsNa última sexta-feira, ela estava abatida como nunca vi. Eu a atendo desde 2007, o que significa quase dez anos, e ainda não tinha visto seu cenho tão franzido. Nas sextas, eu a atendo pela manhã e ela sempre me aguarda já calçando o tênis, pois antes dos exercícios nós fazemos uma caminhada pela área de lazer de seu prédio. Dessa vez, não foi possível. Ela estava sem lugar, andando com marcha cambaleante, mãos nas cadeiras:

– Hoje dói muito.

– Uai, nunca te vi assim… O que aconteceu? Pegou peso? Algum movimento de mau jeito?

– Ah, essa coluna não tem jeito. Só se trocar.

Essa última frase é ouvida com uma frequência infinita. Já aprendi a ouvi-la e a entender que é a deixa para não falarmos mais no assunto.

Ela tem 82 anos, baixinha, aparenta uma fragilidade que não tem. Ao conhecê-la perguntei: em que posso ajudá-la? Assentada na poltrona da sala ensolarada de sua casa, ouvi como resposta:

– Ah, minha filha quer que eu faça exercícios de fisioterapia para ver se melhoro da coluna.

Depois de alguns encontros, ela, já se sentindo mais segura em minha companhia, dispara:

– Sabe o que me levou ao médico? Eu estava na sala aqui de casa e quando vi não sabia chegar ao meu quarto. Fiquei apavorada. Contei pra minha filha chorando muito e pedindo ajuda. Aí o médico disse que eu estava com aquele problema de memória.

Pergunto:

– Alzheimer?

– Isso. Ele falou depois dos exames que eu tinha isso. Mas agora que já tomei os remédios, acabou.

Essa fala se deu há quase dez anos. Saí perplexa de lá. E por muitos dias me acompanhou uma sensação de estranheza, de indignação. Fiquei reflexiva. Estar na sala e não saber chegar ao quarto de um apartamento funcional e habitado há tantos anos. A sala decorada com os bibelôs e porta-retratos dos netos, que fica a oito passos do quarto com sua televisão constantemente ligada, seu espelho cheio de referências familiares (fotografias de viagens, cartões de natal, de batizados). Essa sala que nesse momento se transformou num imenso vazio, onde as luzes se apagaram e só restou um breu. Onde, meu Deus, onde?