Quero estar conectada!

Clipboard01Ela é uma senhorinha adorável. Há tempos nos encontramos semanalmente e passamos preciosos minutos conversando, trocando ideias e afetos.

Quando da perda de seu marido, mergulhou em uma tristeza profunda. Com coragem e determinação, soube surrar as mágoas, curtir as boas lembranças. Sabe como ninguém fazer uso do “levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima”.

Busca todos os dias a leveza. Do alto de seus 80 anos ela me ensina a ver graça, a sorrir. Seus olhos ficam marejados facilmente. A emoção está impregnada em toda ela.

Começamos nosso trabalho juntas na busca de concentração, de resgate de palavras que ficavam perdidas na ponta da língua.

Na véspera de um Natal começa e me indagar:

– O que é e-mail?

– Como as pessoas se comunicam dentro do computador?

– É seguro?

– Tem perigo das pessoas virem à minha casa, descobrirem onde moro?

– Endereço sem ser da rua?

Perguntas que eu buscava responder e que atestavam minha ignorância no assunto.

Por fim, chego para nosso encontro no salão de festas de seu prédio, onde religiosamente me espera, e ela dispara:

– Maria Lúcia, descobri que quero estar conectada! Você me ajuda?

Mas como? Logo eu, tão reclusa e com tantas dificuldades em conectar-me?

– Pois sim, claro que ajudo.

O socorro nesse caso seria mútuo. Como, aliás, quase que invariavelmente acontece.

Vamos nós pesquisar sobre tablet, marcas, perfil do usuário, até chegarmos à conclusão de que um Samsung atenderia muito bem à necessidade de minha amiga de calendário – assim nos chamamos na tentativa de nomear uma convivência afetiva e harmônica.

E iniciamos o outro ano com o compromisso de criarmos uma conta de e-mail (“mas eu vou ter que pagar?”), uma senha (“precisa ficar bem guardada, né?; “posso dar aos meus filhos?”) e de destrincharmos as possibilidades que aquela maquininha bonitinha em sua mão nos daria.

– Bom dia, Samsung!

Eu me emociono com a vitalidade dessa querida senhorinha.

Acreditem, tem dias que ela amanhece dando bom dia ao seu Samsung. Ela pressiona o microfone do Google e pede músicas, variadas, às vezes, Roberto Carlos; às vezes, Julio Iglesias; noutras, músicas de seu tempo de mocinha.

Envia e-mail para seus filhos, genros, netos. Adora receber novidades – estar conectada. Até me ensinou sobre instagram – onde tem uma conta!

Interessa-se pelo que acontece e se posiciona. Sempre busca ver com humildade e humanidade a confusão que nós humanos fazemos deste mundo.

Lê seu jornal no fim de semana, adora folhear, buscar as notícias, se informar.

Ainda que vez ou outra tropece na palavra que some quando quer explicar algo, ela não se dobra, passa a mão displicente no rosto – como é mesmo isso? Ih, fugiu! – e segue contando o caso, rindo da vida e para a vida.

Temos um caderno de atividades. Na verdade, dois. Trocamos semanalmente para que ela possa se exercitar durante a semana e me mostrar nos encontros.

Este último “para casa” foi complicado. Exigia mais de sua concentração e agilidade.

Dentro de um espaço emoldurado e quadriculado, uma tabela, sílabas que se referiam na horizontal a números e na vertical a letras. Ao dar o comando, por exemplo, da letra A com o número 4, ela buscaria no quadro e encontraria a sílaba “DO”, que junto com o próximo comando (A4+C1), formaria uma palavra (DO+CE=DOCE).

Para uma senhora de 80 anos, caseira, solitária, formada professora na década de 50, que em minha companhia busca manter-se concentrada e com as palavras em ordem, não foi fácil entender esse exercício.

Já estávamos finalizando nosso encontro, expliquei como era a atividade, fizemos alguns como exemplos e ela levou para casa.

Hoje, ao ir encontrá-la, pensei: vamos precisar de um tempo maior naquele exercício. Melhor começar por aí para esclarecermos a tarefa e ela aprender.

Qual não foi minha surpresa quando ela:

– Maria Lúcia, adorei este exercício! Quero que você me dê mais dele para fazer.

Fiquei emocionada ao abrir o caderno e ver o quadro completo. Ela buscou as sílabas e montou as palavras corretamente.

“Foi difícil”, ela disse. “Mas não desisti”.

Bati palmas, expressei minha alegria ao ver que ela alcançou o que buscamos – concentrou-se, montou palavras, deu significado ao seu raciocínio.

– Sabe, teve alguém que me disse que esse é um exercício para menino que está aprendendo a ler.

Com uma pontada de ressentimento ela me conta. Sentiu-se pequenininha.

Ao considerar chinfrim o exercício, alguém apontou sem valor a pessoa que o fez – assim se viu a senhorinha.

Ariano Suassuna nos disse certa vez que para enfrentarmos o trágico da existência uma das saídas é o sonho. A outra, o riso.

Fernando Sabino, Hélio Pellegrino, Otto Lara Resende e Pedro Nava assentados em um banco à frente da Biblioteca Pública, na Praça da Liberdade, têm encontro marcado com a senhorinha, que sonha conversar com eles e se alimentar de suas palavras. Assim ela escapa da pequenez e novamente ilumina o rosto com sua genuína alegria.

Concluímos juntas: pode ser que ao completar 80 anos esse alguém consiga fazer esse exercício sozinha e rapidamente. Pode ser que não. Quem sabe? E minha amiga de calendário torce para que sim.

Dona da casa da vida

– Sabe quem é a dona desta casa?

– Sabe quem manda aqui?

transponder_love_wallpaper_by_anasyEu chegava à sua casa, no meio da manhã de uma terça-feira, e ela olhava séria e provocativa para a pessoa que cuida da casa e dela. Perguntava com força na voz, querendo fazer valer quem ela é. A contratada para ali trabalhar vendo-se no direito de mandar em como e o que fazer com o intuito de limpar, de organizar, de cozinhar e de tudo o mais que demanda uma casa. Esquecendo-se do detalhe fundamental: a dona da casa existe. Vive.

Temos quase sempre a impressão que uma pessoa com diagnóstico de Alzheimer já traz escrita na testa sua perda de autonomia, de identidade, de independência. Como se a doença se instalasse e ligeiramente já tomasse conta da casa e se fizesse dona.

Mas a verdade é que ela vem sorrateira, dissimulada nas palavras deslocadas, na risada fora de hora, no sumiço do sabonete que certamente desceu com a descarga no vaso sanitário. Ela instala-se, porém a dona da casa ainda tem força para reivindicar seu lugar. E apodera-se dele com desejo de vida.

Essa mesma pessoa que fala bravo, do alto de sua lucidez oscilante, me oferece flores arrancadas pela sua mão firme, do jardim do prédio ou da jardineira da janela da sala de jantar. Quase toda vez que nos encontramos. Não diz palavra, só me oferece. Seu gesto é tudo. Leva o olhar, que ora desamparado, ora sustentado pela vitalidade, desabrocha na azaléia coral que trago comigo.

Murcha entre as páginas do meu livro de cabeceira, está viva. Muito viva.

 

Alzheimer? Já acabou

leaves_wallpaper_by_ematsNa última sexta-feira, ela estava abatida como nunca vi. Eu a atendo desde 2007, o que significa quase dez anos, e ainda não tinha visto seu cenho tão franzido. Nas sextas, eu a atendo pela manhã e ela sempre me aguarda já calçando o tênis, pois antes dos exercícios nós fazemos uma caminhada pela área de lazer de seu prédio. Dessa vez, não foi possível. Ela estava sem lugar, andando com marcha cambaleante, mãos nas cadeiras:

– Hoje dói muito.

– Uai, nunca te vi assim… O que aconteceu? Pegou peso? Algum movimento de mau jeito?

– Ah, essa coluna não tem jeito. Só se trocar.

Essa última frase é ouvida com uma frequência infinita. Já aprendi a ouvi-la e a entender que é a deixa para não falarmos mais no assunto.

Ela tem 82 anos, baixinha, aparenta uma fragilidade que não tem. Ao conhecê-la perguntei: em que posso ajudá-la? Assentada na poltrona da sala ensolarada de sua casa, ouvi como resposta:

– Ah, minha filha quer que eu faça exercícios de fisioterapia para ver se melhoro da coluna.

Depois de alguns encontros, ela, já se sentindo mais segura em minha companhia, dispara:

– Sabe o que me levou ao médico? Eu estava na sala aqui de casa e quando vi não sabia chegar ao meu quarto. Fiquei apavorada. Contei pra minha filha chorando muito e pedindo ajuda. Aí o médico disse que eu estava com aquele problema de memória.

Pergunto:

– Alzheimer?

– Isso. Ele falou depois dos exames que eu tinha isso. Mas agora que já tomei os remédios, acabou.

Essa fala se deu há quase dez anos. Saí perplexa de lá. E por muitos dias me acompanhou uma sensação de estranheza, de indignação. Fiquei reflexiva. Estar na sala e não saber chegar ao quarto de um apartamento funcional e habitado há tantos anos. A sala decorada com os bibelôs e porta-retratos dos netos, que fica a oito passos do quarto com sua televisão constantemente ligada, seu espelho cheio de referências familiares (fotografias de viagens, cartões de natal, de batizados). Essa sala que nesse momento se transformou num imenso vazio, onde as luzes se apagaram e só restou um breu. Onde, meu Deus, onde?