SINTONIA

conception_wallpaper_by_el_nombre (1)O OLHAR QUE ENCOBRE

Olhava para a máquina. Era portátil. Envolvida em uma capa marrom, ficava guardada em armários fechados, esquecida. Hoje estava em cima da mesa. Ela tinha se decidido a abri-la, mas estava ali, parada. Ganhara a máquina há quase 25 anos. Tinha feito a mão um vestido e sua mãe, surpreendida, quis presenteá-la. Hoje ela quer costurar. Movimentar as mãos, esvaziar a cabeça. Ocupar-se da costura traz esta dádiva: a cabeça fica só ali, sem mais nada. Mãos a obra!

Todos os dias, no miudinho, ela constata a preciosidade da perseverança no viver. A quimioterapia fez estragos desastrosos em seu corpo. É temporário, haverá tempo para a reconstrução, um momento de cada vez, cuidadosamente vivido. Todos repetem insistentemente essas falas, na tentativa de suavizar e de deixar mais fácil o que ela tem enfrentado.

Dia desses resolveu entrar em uma padaria, tinha que ser arejada, grande e com pouca gente. Imediatamente todos pararam e olharam para ela. O constrangimento ficou maior que o espaço, sentia-se desnuda diante deles. Uma mulher olhava insistentemente. Ela resolveu encarar o olhar que se dirigia ao lenço colocado na cabeça careca. Os olhares se cruzaram num átimo de segundo. Sem jeito, a mulher: hãn, onde você comprou seu lencinho? Tão bonito… Ela imediatamente tirou o lenço da cabeça e colocou-o na mão da mulher. A careca enfim posta à vista. Os olhares dos que ali estavam se dirigiram aos ínfimos buracos e gretas e rodapés e fendas e rachadelas e frinchas. Você gostou do lenço? Trabalho das rendeiras do Nordeste, comprei numa casa de chá aqui perto. Colorido, né? É. Bonito. Sem pestanejar a mulher devolve o lenço quase que tapando a cabeça sem fios que a deixou completamente impactada.

O CENTRO DA VIDA

Ao buscar calma nas tentativas trêmulas de colocar a linha na agulha fixada na máquina, vêm à sua lembrança algumas dessas imagens vividas recentemente. Saber-se o centro de sua vida é dos aprendizados mais ricos dessa fase de agora. Voltemos à perseverança no viver. Carol, hoje com quase 8 anos de idade, dá uma alegria danada quando pega as panelinhas da irmã e busca encaixar a tampa. O tremor involuntário de suas mãozinhas dificulta muito seu desempenho. Desde pequenina, nos atendimentos que faz (fisioterapia, fonoaudiologia, terapia ocupacional) e nas escolas, insistem em oferecer oportunidades deste tipo de movimento (encaixes, montagem, continente/conteúdo etc). Insistem, mas como que para cumprir o papel de ocupar o tempo de Carolina. Por fim, não acreditam que ela conseguirá, deixam que ela manipule aparentemente sem objetivos. Porém, para Carol, sua meta é clara, claríssima: explorar, como sabe, tudo o que tem pela frente. Mas, não é isso que todos nós fazemos? Seu jeito peculiar de fazer não é respeitado. Precisa de intervenções, de insistentes “assim não, Carol!” para que os que a rodeiam finjam não dirigir o olhar aos ínfimos buracos e gretas e rodapés e fendas e rachadelas e frinchas.

APRENDIZADO

A reconstrução da casa, sendo o corpo a primeira que habitamos, será demorada. Leva tempo cuidar do que foi agredido e machucado na busca da saúde. O câncer passa a ser um alerta para bem viver. As drogas que mataram as células doentes também matam muito do que é saudável. Com a diferença de que a saúde traz de volta o que é bom! O tremor das mãos ao buscar colocar a linha na agulha pode ser passageiro, como efeito das drogas da quimioterapia. Pode não ser, pode ter a ver com a idade, não importa. Importa aprender com Carolina a perseverar. A ter clareza nas metas, no desejo. Importa saber que o que ela quer se sobrepõe a todo o resto. É maior que tudo, menos que ela.

Carolina aponta, mais uma vez, para a preciosidade de nos mantermos em sintonia com nossos desejos. Não perder de vista quem somos, o que queremos. Demonstra de maneira escancarada, para quem quiser ver, que podemos usufruir a vida com leveza. Basta querer. Simples assim. Quem ousa aprender com ela? (outono 2007)