Dentro do Papel

paper_planes_by_jillebeancolbertAberto o papel eu disse a ele – quer desenhar? Ele quis saber como fazer. O que você quiser, do modo que quiser. Pensei: mas ele tem só quatro anos! Quero que estar ali seja uma brincadeira. Prazerosa, agradável. Não precisa ser maçante aprender. Quero saber oferecer oportunidades, mediar conhecimento. E ele desenhou uma casa. Quis cantar enquanto desenhava. Sua voz melodiosa, docemente infantil, iluminou a sala: “há uma casa bem pequenina, abre a janelinha, deixa o sol entrar.” Depois de colocar muitas paredes, além das verticais tinha também horizontais, (curiosamente horizontais), ele quis fazer a janela bem no alto. Talvez para que o sol a alcançasse mais rápido. E eu, com medo de interferir, arrisquei: cadê a porta? Ah, a porta. Sabe como é, ela fica dentro do papel. Como assim, dentro do papel? Não ouvi palavra. A tarde já se tornava noitinha e eu quis que fosse manhã e que tivéssemos muito tempo. Aí, depois da pergunta que trouxe o silêncio, ele, cuidadosamente, com suas mãos longilíneas e com movimentos bem lentos, virou a folha. No verso do desenho da casa, exatamente onde era pra ele colocar a porta, ele a desenhou. Colocou as mãos no rosto, com um olhar misterioso e transparente disse: Sabe, eu adoro desenhar dentro do papel. Fiquei com essa sensação guardada enquanto olhava a Serra do Curral. A água da chuva não lavou nosso trato – o segredo de dentro do papel existe. A ventania não fazia barulho, só balançava as redes que guardam e sustentam as bolas no ar (outro dia disse que quer ter dessas redes no quarto dele para guardar os brinquedos – ou seria para mantê-los no ar?).

Ele tem um traço firme do alto de seus quatro anos. Está aprendendo as letras, os números. E ainda é difícil desenhar. Incrível como impõem tanta regra para se perder o brincar prematuramente.

A babá me disse certa vez: viu como este menino é calmo? Ele é muito zen. Tão solto, com um olhar que vagueia, ele quer só ser e desenhar dentro do papel. (inverno 2014)

Alzheimer? Já acabou

leaves_wallpaper_by_ematsNa última sexta-feira, ela estava abatida como nunca vi. Eu a atendo desde 2007, o que significa quase dez anos, e ainda não tinha visto seu cenho tão franzido. Nas sextas, eu a atendo pela manhã e ela sempre me aguarda já calçando o tênis, pois antes dos exercícios nós fazemos uma caminhada pela área de lazer de seu prédio. Dessa vez, não foi possível. Ela estava sem lugar, andando com marcha cambaleante, mãos nas cadeiras:

– Hoje dói muito.

– Uai, nunca te vi assim… O que aconteceu? Pegou peso? Algum movimento de mau jeito?

– Ah, essa coluna não tem jeito. Só se trocar.

Essa última frase é ouvida com uma frequência infinita. Já aprendi a ouvi-la e a entender que é a deixa para não falarmos mais no assunto.

Ela tem 82 anos, baixinha, aparenta uma fragilidade que não tem. Ao conhecê-la perguntei: em que posso ajudá-la? Assentada na poltrona da sala ensolarada de sua casa, ouvi como resposta:

– Ah, minha filha quer que eu faça exercícios de fisioterapia para ver se melhoro da coluna.

Depois de alguns encontros, ela, já se sentindo mais segura em minha companhia, dispara:

– Sabe o que me levou ao médico? Eu estava na sala aqui de casa e quando vi não sabia chegar ao meu quarto. Fiquei apavorada. Contei pra minha filha chorando muito e pedindo ajuda. Aí o médico disse que eu estava com aquele problema de memória.

Pergunto:

– Alzheimer?

– Isso. Ele falou depois dos exames que eu tinha isso. Mas agora que já tomei os remédios, acabou.

Essa fala se deu há quase dez anos. Saí perplexa de lá. E por muitos dias me acompanhou uma sensação de estranheza, de indignação. Fiquei reflexiva. Estar na sala e não saber chegar ao quarto de um apartamento funcional e habitado há tantos anos. A sala decorada com os bibelôs e porta-retratos dos netos, que fica a oito passos do quarto com sua televisão constantemente ligada, seu espelho cheio de referências familiares (fotografias de viagens, cartões de natal, de batizados). Essa sala que nesse momento se transformou num imenso vazio, onde as luzes se apagaram e só restou um breu. Onde, meu Deus, onde?