A arte de aprender

Oi Maria Lucia ,

Demorei um pouco para escrever porque a vida é intensa e com muitas emoções.

AMEI seu livro Exercício do Respeito !

Vivi todas as suas historias com seus pacientes e queria muito ter tido você por perto quando minha filha era pequena.

Hoje minha Rafaela está com 17 anos e a luta foi enorme!!

Assim que acabei de ler o livro pensei : ” Deus, mais Marias Lucias no mundo , Please !!

Estou te mandando um texto  que saiu no jornal O Globo ( dez /2016) que fala um pouco da minha historia com minha filha)

Obrigada pelo seu carinho com todas as pessoas com necessidades especiais .

Obrigada por sua luta que é a minha diariamente .

Um abraço de uma fã carioca,

Andrea


As lições de uma professora de Educação Física, personal trainer e mãe de uma menina especial

POR ANDREA APOLONIA

O projeto e a criação de um filho são o maior acontecimento na vida de qualquer mãe. São expectativas, emoções, ansiedades e medo administrados diariamente. Saímos da maternidade com aquela coisinha linda, enroladinha nos braços, orgulhosas, felizes, cheia de ideias e sonhos. Minha filha chegou quando eu tinha 26 anos. Como profissional de Educação Física, estava preparada para o parto. Ganhei apenas 8,5kg em toda a gravidez. A Rafa nasceu linda, e fomos para casa no dia seguinte.

Andrea Apolonia e sua filha, Rafaela - Guito Moreto / Agência O Globo
Andrea Apolonia e sua filha, Rafaela – Guito Moreto / Agência O Globo

Percebi com alguns meses que ela tinha dificuldade para ganhar peso. Tinha hipotonia (pouco tônus muscular) e com 5 meses não conseguia sustentar a cabeça. Resolvemos levá-la a um neurologista. Era tanta expectativa, mas saímos sem um diagnóstico preciso. Os meses passavam, e via que a Rafa não tinha o mesmo desenvolvimento de outras crianças. Depois de infinitas idas a médicos, consegui fechar o diagnóstico da Rafa, já com 4 anos, no Hospital Sarah Kubitschek. Ela tem uma deficiência genética conhecida como síndrome de Angelman, ou inativação dos genes do cromossomo 15.

Com a descoberta do problema, via ali a esperança do tratamento. Haveria de haver um medicamento para minha filha. Resolvi estudar o assunto. Descobri que a ocorrência desta síndrome é rara, daí a dificuldade do diagnóstico. Consta que nos EUA há somente mil indivíduos catalogados, e que a ocorrência é de um caso para cada 30 mil nascimentos. Não há cura, mas sim tratamento para minimizar sintomas da doença, e em 10% dos casos as crianças não conseguem andar. A Rafa começou a andar com 1 ano e 8 meses. Seguindo orientação de um dos médicos, a coloquei na escola assim que completou 2 anos. Ela não falava e andava com dificuldade. Deixava que ela subisse os degraus sem ajuda de ninguém. Quando caía, deixava que se levantasse sozinha. Assim, aos tombos, ela foi se desenvolvendo.

Depois que meu casamento terminou, o pai dela continuou presente. Ele criou uma página (“Travessuras de uma menina especial”), onde registra seus vídeos. Na luta diária, dividimos tudo. As derrotas e as mínimas conquistas. Incluímos a Rafa em todos os nossos programas. Na praia, na piscina, nas pracinhas, nos passeios de bike, nos shoppings, teatros, musicais, cinemas. Ela é muito popular. Com sorriso fácil e simpatia, logo arranja fãs aonde quer que vá. Mesmo sem falar uma única palavra. E sempre somos tratadas com carinho. Além da ausência da fala, ela tem hiperatividade, transtorno do sono e crises convulsivas controladas, que são os sintomas clínicos da síndrome. A Rafa completou 17 anos no último dia 29.

Certa vez, conversava com o doutor Annibal Amorim, neurologista da Fundação Oswaldo Cruz, quando lhe confidenciei que desejaria fazer um vídeo do dia a dia da Rafa. Ele gostou da ideia. Empolgados, resolvemos incluir também outras mães com seus filhos especiais. O filme se chamou “Um dia especial” e foi produzido com o apoio da JICA (Japão), com direção de Yuri Amorim. Fez sua estreia em Tóquio e vem desde então fazendo sucesso no Brasil porque conta histórias lindas e comoventes. Ganhou dois prêmios no Festival “Assim vivemos”, do CCBB do Rio.

Por tudo isso, só tenho que agradecer e dizer: “Muito obrigada, Rafa!”

Ensinamentos da Rafaela

Ninguém está preparado para um filho especial, não passa pela nossa cabeça essa possibilidade. Então, o primeiro e mais importante ensinamento foi a aceitação. Aceitar as dificuldades, aceitar os desafios, aceitar tudo da melhor forma possível.

A Rafa também me ensinou a amar e a respeitar as diferenças, a pensar em inclusão todos os dias.

Aprendi como a mãe da Rafa a agradecer e a comemorar todas as pequenas conquistas dela, por mínimas que pareçam. Um simples levantar sozinha, engatinhar, sentar, ir ao banheiro. Cada conquista era um acontecimento, uma chuva de alegria e gratidão.

A Rafa é especial em tudo. Vejo felicidade estampada em seu rosto nas pequenas coisas do cotidiano. Quando vê uma onda no mar, uma pipa no céu, o balançar do galho de uma árvore.

Ela percebe que faz parte de uma família e se sente querida. Adora estar com as pessoas, valorizando o ser e não o ter.

É um ser puro. Não dá a mínima chance para o ódio, a inveja, o interesse, a esperteza, o rancor. Só quer dar e receber amor. Estas coisas me encantam, me orgulham, me fazem crescer.

Apesar de a Rafa não falar, nossa comunicação é perfeita. Nós nos entendemos bem porque falamos a linguagem do amor.

Nós nos conectamos sem wi-fi, sem iPhone, sem e-mail, sem WhatsApp.

A nossa rede é o olhar e a senha é o amor.

* * *

ESPINHOS DAS PALAVRAS

Esta história já foi escrita há tempos e ainda é tão atual…

Também ainda arranham-me os espinhos. Das palavras ditas e das silenciadas que o vento não levou.

O exercício do respeito cotidianamente me exige prontidão. E a disponibilidade de praticá-lo.

Em frente!

ESPINHOS DAS PALAVRAS

Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina.
Cora Coralina

Na espera telefônica, a gravação diz que aquela escola respeita a potencialidade de cada um, dando a todos condição de aprendizado. A voz sonora e melodiosa ainda chama a atenção para o fato de que naquela escola cada pessoa é única e sua individualidade é respeitada.

Diante de tal propaganda, lá foi a mãe, com grande expectativa, ver se a filha poderia ser escolhida para frequentar aquele ambiente. Aqui não se trata de escolher, e sim de ser escolhido. Essa inversão é curiosa e alarmante, pois uma escola que se diz de qualidade não escolhe. A escola que encara os desafios, especialmente o desafio da diversidade – no sentido mais humano que essa palavra entoa – e busca a qualidade para todos, de todas as maneiras e com todos os recursos, é a escola. Não necessita mais. Só ser escola.

Muito receptiva, a funcionária recebe carinhosamente a menina, com sete anos, para que esta passe três tardes sob o olhar das professoras, supervisoras, orientadoras. Querem ver se ela poderá frequentar a educação infantil (anteriormente chamada “jardim de infância”, lembram?).

A menina Gabriela considerava uma ideia ir para essa escola grande, cheia de meninos e rampa e elevador e cores… Esta escola que seria uma ideia e que convidou Gabriela para ser observada fez propaganda enganosa. Após os três dias, pelo telefone, a supervisora pedagógica me comunica que não está preparada para aceitá-la.

Mas como? Não veem potencialidade em cada um? Não disseram que a prática é fundamentada no fazer de cada aluno? O que eles viram do fazer de Gabriela em três dias? O alto padrão de ensino só é oferecido para escolhidos? Quais são os escolhidos? Suspeito que Gabriela não está nessa lista por um motivo muito simples: a condição de aprendizado deve ser mútua.

Explico: não é possível ensinar Gabriela sem aprender. Esse exercício se dá quando tiramos os olhos das dificuldades que ela possa ter e voltamos esse olhar para nós mesmos, para o nosso aprender. Onde está minha dificuldade em oferecer as oportunidades a Gabriela? Por que não alcanço Gabriela com este conteúdo? Afinal, qual hipótese de raciocínio ela está fazendo que não consigo entender?

Aí se encontra a qualidade do ensino. Essa estratégia criativa e tão simples é que faz possível a qualidade para todos: alunos, professores, funcionários.

A escola argumenta que não está preparada. Em seu alto padrão de ensino não cabe Gabriela. Alto padrão?

Como vão se preparar? O que falta para eles ganharem ao conviver com Gabriela? O que falta para eles se deliciarem com suas conquistas, sua inteligência, sua braveza? Sua vivacidade e perseverança insistem em estar no mundo para acordar e humanizar as pessoas. Querem ver?

Dia desses, no final da sessão de fisioterapia, conversávamos:

– Gabi, sua escola fica longe ou perto da sua casa?

Ela me respondeu: “Fica longe”.

– E como você vai para lá: de ônibus, de carro ou de especial?

– Eu vou de caminhonete.

Mas como? Eu sabia que o pai dela não tinha caminhonete. Também sabia que é ele quem leva os filhos para a escola (a mãe busca).

– Ah, você quer me dizer que gostaria de ir para a escola de caminhonete, né? Mas me conta, como você vai para a escola?

– Lúcia, você não entendeu. Eu vou de caminhonete para a escola.

­– Não, Gabi. Você queria ir, mas você vai de outro carro. Quem te leva?

– Meu pai.

– Ah, então, com qual carro seu pai leva você?

Tudo isso, esse diálogo um tanto irritante que ainda se prolongou, na tentativa de fazer Gabriela dizer o nome do carro que eu supostamente conhecia. Não adiantou. Ela insistia em dizer que ia de caminhonete e eu em não acreditar nela. Depois de muito ficar nesse embate, falei:

– Tá bom, nosso tempo está acabando. Vamos deixar registrado no seu caderno que você vai de caminhonete. Agora vamos pegar suas meias e sapatos porque está na hora.

Ela calmamente começou a calçar. Quando abrimos a porta, seu pai já estava esperando por ela.

– Ah, que bom que você já chegou – eu falei. – Hoje aconteceu uma coisa engraçada.

E contei a ele o sucedido. Finalizei assim: “Pois é, acho que ela queria ir de outro carro para a escola”!

O pai, todo feliz, olhando bem nos olhos da filha, me respondeu:

– Sabe o que é, Lúcia, eu comprei uma caminhonete.

Fiquei pasma. Imediatamente me agachei para ficar na altura da menininha de sete anos que me olhava desafiadora e me indagando: “Não falei?”.

– Gabriela, me perdoa. Você vai mesmo de caminhonete, né? Eu não acreditei.

Preferi acreditar na minha verdade, que considero tão absoluta… Ainda precisei de seu pai para reafirmar o que, de fato, é verdade.

Gabriela tem Síndrome de Down. Como sempre, saiu toda feliz do consultório. Já tinha me perdoado e saía perguntando ao pai pelos irmãos.

Eu fiquei ali, parada. Arranhavam-me por dentro os espinhos das minhas palavras. Da minha insistência em não reconhecer voz na pessoa da Gabriela. Que alívio nós duas sentimos quando o pai falou da existente caminhonete. Ela, por se ver reconhecida na verdade. Eu, por ver mais uma vez a pessoa Gabriela.

Estar no mundo e poder exercitar nesses momentos o que há de humanidade em nós todos é um privilégio. Humanizo-me ao conviver com Gabriela. Revejo-me em seu rosto amigo todas as vezes em que nos encontramos e reafirmamos o gosto de viver.

A escola com a propaganda enganosa também afirma que vencer o desafio do presente é o primeiro passo para o sucesso do futuro. Prefiro acreditar que o sucesso é vivido todo dia, junto com os desafios que se apresentam enormes e se tornam pequenos quando os encaramos cotidianamente.

Parece que não estou sozinha nessa crença. Gabriela já foi recebida em outra escola, grande, cheia de meninos e cores, onde estarão ela e seus irmãos (são dois). Vão enfrentar os desafios fazendo-os miudinhos.

Maria Lúcia Pellegrinelli

Primeira youtuber com síndrome de Down do país muda conceitos da deficiência intelectual no Brasil

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Cacai Bauer, primeira youtuber brasileira com síndrome de Down

A revolução que as pessoas com síndrome de Down têm feito no país continua a descortinar um mundo cheio de possibilidades e de surpresas naqueles que muitos imaginavam como bocós sem chance de darem conta até de si mesmos. Aos poucos, o mantra do “ser diferente é normal”, emanado por gente que se nega a ser enterrado por preconceitos, vai colando no mundo moderno.

Pessoas com um cromossomo a mais já chamaram a atenção por ingressarem na faculdade, serem protagonistas de filmes e agitarem pistas de dança. Agora é a vez de Cacai Bauer, 22, ganhar o título de primeira down a manter um canal de vídeos na internet. Ela já conta quase 400 mil visualizações em suas produções.

Difinitivamente”, como diria minha tia Filinha que completou 91 anos, não sou um ser bonzinho que bate palmas para menino que faz malabarismo tosco no sinal e se diz aprendiz do Cirque du Soleil, por isso, e por eu ser um “malacabado” ranzinza, achei vários dos episódios de Cacai chatos, colados de outros youtubers e com graça questionável.

Você não entende que a menina tem problema?” É óbvio que os efeitos e impactos da deficiência intelectual da garota precisam ser entendidos, relevados e considerados na média ponderada. Mesmo assim, o meu gosto não se altera. Não subestimo, mas também não elevo ninguém apenas por características físicas, sensoriais ou intelectuais.

Deficiência não deve jamais abrir caminho para a valorização ou desvalorização de alguém. Ela pode e deve ser botada na balança para tomada de decisões, políticas públicas e dar acesso, mas não pode ser o fator que leva a um pensamento de aprovação, de “curtir”.

Paternalismo, dó, assistencialismo servem apenas para preservar um lugar de conforto, são afagos pontuais para quem precisa de um curso completo de como se firmar e ser valorizado como cidadão capaz, dentro de suas possibilidades, de ser engraçado, de ser profissional, de ser o que tem vontade.

Dito tudo isso, sem medo de ser contraditório, o canal de vídeos de Cacai é genial, faz história, rompe uma fronteira inclusiva —a da imagem estigmatizada— e contribui de maneira ímpar para o avanço do reconhecimento das pessoas com síndrome de Down no país.

A jovem baiana não só revela um talento artístico, de improvisação e de acuidade técnica incríveis, como resiste e se fortalece com críticas impiedosas de comentaristas de internet que faz questão de não apagar, mas de enfrentar e de observar para fazer melhor.

O mais importante nos vídeos protagonizados por Cacai (que vão de paródias musicais a listas de preferências e sátiras) é o conteúdo que ela não mostra ao público, mas que fica implícito em sua segura teatralidade, no seu desenvolto palavreado, em sua capacidade de driblar imposições severas impostas pela síndrome, como possível dificuldade de se expressar, falta de segurança para tomar atitudes, receio de enfrentar o desconhecido, memorização dos papéis.

O recado maior dado pelo ineditismo da ação da youtuber é que a fórmula da inclusão de fato está pronta e leva esperança a milhares de pessoas. Trata-se de estímulos frequentes, valorização e apoio familiar, enfrentamento de estereótipos e todos juntos para tudo.

Jairo Marques, que é cadeirante, aborda aspectos da vida de deficientes e de cidadania. Aqui, você encontra histórias de gente que, apesar de diferenças físicas, sensoriais, intelectuais ou de idade, vive de forma plena.

Acesso: http://assimcomovoce.blogfolha.uol.com.br/2016/10/05/primeira-youtuber-com-sindrome-de-down-do-pais-muda-conceitos-da-deficiencia-intelectual-no-brasil/

Não são coitadinhos

Mariana Lajolo


Silvânia ficou cega na infância. Verônica sofreu um AVC (acidente vascular cerebral). Yohanssom nasceu sem as duas mãos. Uma infecção levou Alan a ter as duas pernas amputadas aos 21 anos. Clipboard01José sofreu um acidente de trabalho e ficou paraplégico.

Limitações são parte da vida dessas pessoas. Todos já passaram por momentos de dificuldades e/ou preconceito. Eles e os cerca de 4.000 atletas que disputam os Jogos Paralímpicos do Rio a partir do dia 7 de setembro.

O evento não atrai a mesma quantidade de dinheiro, torcedores, esportistas e audiência quanto a Olimpíada convencional. É fato. Mas já ganhou espaço e respeito, tanto que acompanha o calendário do irmão mais badalado.

Por isso, está na hora de tirá-lo cada vez mais da sombra – embora alguns ainda o mantenham lá, vide o revezamento da tocha, que na maior parte do tempo ficará limitado a instituições que trabalham com deficientes.

A história que os atletas paraolímpicos querem escrever, no entanto, não é a da superação da deficiência. Isso já fizeram faz tempo. Querem superar o cronômetro, a barreira, o adversário. Ser mais rápidos, mais fortes, melhores.

Tire da cabeça o estereótipo de deficiente que a sociedade ainda insiste em manter e encare esses atletas como você encarou Michael Phelps ou Usain Bolt. Nem mais nem menos. Igual.

Não acredita?

A cubana Omara Durand tem deficiência visual, enxerga a dois metros de distância o que você vê a 60 metros e já correu os 100 metros rasos em 11s48. Se disputasse a principal competição de atletismo do nosso país, o Troféu Brasil, sairia com medalha de bronze. Jason Smith, um irlandês que tem apenas 10% de visão, chegaria em sétimo na mesma prova.

Markus Rehm, um alemão que não tem parte de uma das pernas, já saltou 8,40m. Esqueça a final brasileira em que ele ganharia a medalha de ouro com 21 cm de vantagem. Com essa marca, Rehm teria saído dos Jogos Olímpicos de agosto no Rio com o título do salto em distância.

Há muita discussão sobre o quanto a prótese ajuda ou não a pular mais longe, é verdade. Então veja o resultado de Silvânia Silva. Com seus 5,46m no salto em distância, a brasileira ficou a 4 cm de figurar entre as 12 melhores do Brasil sem deficiência. Ela é cega e salta com a venda – assim, não enxerga absolutamente nada.

André Brasil tem uma perna mais fina e 5 cm mais curta do que a outra, calça 43 num pé e 36 no outro. Com sua melhor performance seria um dos 16 homens mais velozes nos 50 m livre no último Troféu Maria Lenk – chegaria em oitavo na final B. Esta é a principal prova dos brasileiros na natação.

Siamand Rahman, um iraniano gordinho cadeirante com mais de 107 kg, levanta 296 kg deitado, como num exercício de supino na academia. Na Rio-2016 quer chegar a 300 kg.

São atletas treinados, de alto nível, em busca de recordes e performances marcantes. Não conseguem seus resultados “apesar da deficiência”, mas sim por causa de muitas horas de treinos e dedicação. Às vezes, muito mais do que os esportistas das modalidades convencionais.

Não são coitadinhos.

fonte: Texto de Mariana Lajolo no caderno Esportes da Folha de São Paulo de 02/09/16

Viver vivendo

Clipboard01Nascida em outubro, eu a conheci em maio, prestes a completar sete meses. Isso há vinte anos.

Era um serzinho pequenino, frágil, tão delicado, com olhos muito expressivos, duas jabuticabas. Apresentava um quadro motor grave e tinha uma vitalidade gigante para amenizar aquilo.

Quanta luta nesses vinte anos. Entre idas e vindas do interior de Minas construímos confiança em nossa convivência. Ficaram comuns orientações de fisioterapia e sugestões de como educar uma menina diante de todas as dificuldades que enfrenta (cadeira de rodas, falta de sensibilidade nas pernas, olhares piedosos, curiosos, professores incrédulos de sua capacidade e por aí vai).

O exercício do respeito anda escasso – precisamos tanto aprender a enxergar a pessoa antes de enxergar o que ela carrega.

Por volta dos dez anos, ela viveu uma situação complicada, divisora de águas. Internação, exames, cirurgia e o resultado: perdeu a visão do olho esquerdo e diminuiu bastante a do direito.

Puxa! Que difícil encarar mais essa, além de todo o resto que a vida impõe.

Não temos como expressar o que quer que seja diante de situações limite. É só tocar a vida.

Aí, no finalzinho daquele ano, após essa tormenta, ela volta com os pais ao consultório. Conversamos, dentre outros assuntos, sobre a mudança que viria: terminado o ciclo fundamental, ela estava prestes a iniciar a antiga quinta série, hoje sexto ano.

Dezembro terminando, e ela no consultório também para as orientações em fisioterapia. Minha cabeça a mil, após alongamentos e exercícios, já tínhamos conversado, sua mãe e eu, sobre a retomada da escola – muitos professores, várias disciplinas, ambiente diferente, novos relacionamentos e desafios. Como prepará-la?

As duas na sala comigo, e eu:

– Como faremos ano que vem, hein? Tantos professores… E me preocupa a dificuldade da sua visão. Vamos encarar mais essa?

– Tia Lúcia, que mês estamos?

– Dezembro.

– Quando começam as aulas?

– Fevereiro do ano que vem.

– Vamos deixar pra pensar nisso em fevereiro?

Engasguei.

– Tá certo. Vamos conversar sobre isso em fevereiro.

Ela tão categórica e firme em sua posição.

Que prepotência a minha. Que lição aprendi com essa mocinha que hoje está na faculdade, já na metade do segundo ano.

E vivendo e ensinando a viver um tempo de cada vez.

Quero estar conectada!

Clipboard01Ela é uma senhorinha adorável. Há tempos nos encontramos semanalmente e passamos preciosos minutos conversando, trocando ideias e afetos.

Quando da perda de seu marido, mergulhou em uma tristeza profunda. Com coragem e determinação, soube surrar as mágoas, curtir as boas lembranças. Sabe como ninguém fazer uso do “levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima”.

Busca todos os dias a leveza. Do alto de seus 80 anos ela me ensina a ver graça, a sorrir. Seus olhos ficam marejados facilmente. A emoção está impregnada em toda ela.

Começamos nosso trabalho juntas na busca de concentração, de resgate de palavras que ficavam perdidas na ponta da língua.

Na véspera de um Natal começa e me indagar:

– O que é e-mail?

– Como as pessoas se comunicam dentro do computador?

– É seguro?

– Tem perigo das pessoas virem à minha casa, descobrirem onde moro?

– Endereço sem ser da rua?

Perguntas que eu buscava responder e que atestavam minha ignorância no assunto.

Por fim, chego para nosso encontro no salão de festas de seu prédio, onde religiosamente me espera, e ela dispara:

– Maria Lúcia, descobri que quero estar conectada! Você me ajuda?

Mas como? Logo eu, tão reclusa e com tantas dificuldades em conectar-me?

– Pois sim, claro que ajudo.

O socorro nesse caso seria mútuo. Como, aliás, quase que invariavelmente acontece.

Vamos nós pesquisar sobre tablet, marcas, perfil do usuário, até chegarmos à conclusão de que um Samsung atenderia muito bem à necessidade de minha amiga de calendário – assim nos chamamos na tentativa de nomear uma convivência afetiva e harmônica.

E iniciamos o outro ano com o compromisso de criarmos uma conta de e-mail (“mas eu vou ter que pagar?”), uma senha (“precisa ficar bem guardada, né?; “posso dar aos meus filhos?”) e de destrincharmos as possibilidades que aquela maquininha bonitinha em sua mão nos daria.

– Bom dia, Samsung!

Eu me emociono com a vitalidade dessa querida senhorinha.

Acreditem, tem dias que ela amanhece dando bom dia ao seu Samsung. Ela pressiona o microfone do Google e pede músicas, variadas, às vezes, Roberto Carlos; às vezes, Julio Iglesias; noutras, músicas de seu tempo de mocinha.

Envia e-mail para seus filhos, genros, netos. Adora receber novidades – estar conectada. Até me ensinou sobre instagram – onde tem uma conta!

Interessa-se pelo que acontece e se posiciona. Sempre busca ver com humildade e humanidade a confusão que nós humanos fazemos deste mundo.

Lê seu jornal no fim de semana, adora folhear, buscar as notícias, se informar.

Ainda que vez ou outra tropece na palavra que some quando quer explicar algo, ela não se dobra, passa a mão displicente no rosto – como é mesmo isso? Ih, fugiu! – e segue contando o caso, rindo da vida e para a vida.

Temos um caderno de atividades. Na verdade, dois. Trocamos semanalmente para que ela possa se exercitar durante a semana e me mostrar nos encontros.

Este último “para casa” foi complicado. Exigia mais de sua concentração e agilidade.

Dentro de um espaço emoldurado e quadriculado, uma tabela, sílabas que se referiam na horizontal a números e na vertical a letras. Ao dar o comando, por exemplo, da letra A com o número 4, ela buscaria no quadro e encontraria a sílaba “DO”, que junto com o próximo comando (A4+C1), formaria uma palavra (DO+CE=DOCE).

Para uma senhora de 80 anos, caseira, solitária, formada professora na década de 50, que em minha companhia busca manter-se concentrada e com as palavras em ordem, não foi fácil entender esse exercício.

Já estávamos finalizando nosso encontro, expliquei como era a atividade, fizemos alguns como exemplos e ela levou para casa.

Hoje, ao ir encontrá-la, pensei: vamos precisar de um tempo maior naquele exercício. Melhor começar por aí para esclarecermos a tarefa e ela aprender.

Qual não foi minha surpresa quando ela:

– Maria Lúcia, adorei este exercício! Quero que você me dê mais dele para fazer.

Fiquei emocionada ao abrir o caderno e ver o quadro completo. Ela buscou as sílabas e montou as palavras corretamente.

“Foi difícil”, ela disse. “Mas não desisti”.

Bati palmas, expressei minha alegria ao ver que ela alcançou o que buscamos – concentrou-se, montou palavras, deu significado ao seu raciocínio.

– Sabe, teve alguém que me disse que esse é um exercício para menino que está aprendendo a ler.

Com uma pontada de ressentimento ela me conta. Sentiu-se pequenininha.

Ao considerar chinfrim o exercício, alguém apontou sem valor a pessoa que o fez – assim se viu a senhorinha.

Ariano Suassuna nos disse certa vez que para enfrentarmos o trágico da existência uma das saídas é o sonho. A outra, o riso.

Fernando Sabino, Hélio Pellegrino, Otto Lara Resende e Pedro Nava assentados em um banco à frente da Biblioteca Pública, na Praça da Liberdade, têm encontro marcado com a senhorinha, que sonha conversar com eles e se alimentar de suas palavras. Assim ela escapa da pequenez e novamente ilumina o rosto com sua genuína alegria.

Concluímos juntas: pode ser que ao completar 80 anos esse alguém consiga fazer esse exercício sozinha e rapidamente. Pode ser que não. Quem sabe? E minha amiga de calendário torce para que sim.