A arte de aprender

Oi Maria Lucia ,

Demorei um pouco para escrever porque a vida é intensa e com muitas emoções.

AMEI seu livro Exercício do Respeito !

Vivi todas as suas historias com seus pacientes e queria muito ter tido você por perto quando minha filha era pequena.

Hoje minha Rafaela está com 17 anos e a luta foi enorme!!

Assim que acabei de ler o livro pensei : ” Deus, mais Marias Lucias no mundo , Please !!

Estou te mandando um texto  que saiu no jornal O Globo ( dez /2016) que fala um pouco da minha historia com minha filha)

Obrigada pelo seu carinho com todas as pessoas com necessidades especiais .

Obrigada por sua luta que é a minha diariamente .

Um abraço de uma fã carioca,

Andrea


As lições de uma professora de Educação Física, personal trainer e mãe de uma menina especial

POR ANDREA APOLONIA

O projeto e a criação de um filho são o maior acontecimento na vida de qualquer mãe. São expectativas, emoções, ansiedades e medo administrados diariamente. Saímos da maternidade com aquela coisinha linda, enroladinha nos braços, orgulhosas, felizes, cheia de ideias e sonhos. Minha filha chegou quando eu tinha 26 anos. Como profissional de Educação Física, estava preparada para o parto. Ganhei apenas 8,5kg em toda a gravidez. A Rafa nasceu linda, e fomos para casa no dia seguinte.

Andrea Apolonia e sua filha, Rafaela - Guito Moreto / Agência O Globo
Andrea Apolonia e sua filha, Rafaela – Guito Moreto / Agência O Globo

Percebi com alguns meses que ela tinha dificuldade para ganhar peso. Tinha hipotonia (pouco tônus muscular) e com 5 meses não conseguia sustentar a cabeça. Resolvemos levá-la a um neurologista. Era tanta expectativa, mas saímos sem um diagnóstico preciso. Os meses passavam, e via que a Rafa não tinha o mesmo desenvolvimento de outras crianças. Depois de infinitas idas a médicos, consegui fechar o diagnóstico da Rafa, já com 4 anos, no Hospital Sarah Kubitschek. Ela tem uma deficiência genética conhecida como síndrome de Angelman, ou inativação dos genes do cromossomo 15.

Com a descoberta do problema, via ali a esperança do tratamento. Haveria de haver um medicamento para minha filha. Resolvi estudar o assunto. Descobri que a ocorrência desta síndrome é rara, daí a dificuldade do diagnóstico. Consta que nos EUA há somente mil indivíduos catalogados, e que a ocorrência é de um caso para cada 30 mil nascimentos. Não há cura, mas sim tratamento para minimizar sintomas da doença, e em 10% dos casos as crianças não conseguem andar. A Rafa começou a andar com 1 ano e 8 meses. Seguindo orientação de um dos médicos, a coloquei na escola assim que completou 2 anos. Ela não falava e andava com dificuldade. Deixava que ela subisse os degraus sem ajuda de ninguém. Quando caía, deixava que se levantasse sozinha. Assim, aos tombos, ela foi se desenvolvendo.

Depois que meu casamento terminou, o pai dela continuou presente. Ele criou uma página (“Travessuras de uma menina especial”), onde registra seus vídeos. Na luta diária, dividimos tudo. As derrotas e as mínimas conquistas. Incluímos a Rafa em todos os nossos programas. Na praia, na piscina, nas pracinhas, nos passeios de bike, nos shoppings, teatros, musicais, cinemas. Ela é muito popular. Com sorriso fácil e simpatia, logo arranja fãs aonde quer que vá. Mesmo sem falar uma única palavra. E sempre somos tratadas com carinho. Além da ausência da fala, ela tem hiperatividade, transtorno do sono e crises convulsivas controladas, que são os sintomas clínicos da síndrome. A Rafa completou 17 anos no último dia 29.

Certa vez, conversava com o doutor Annibal Amorim, neurologista da Fundação Oswaldo Cruz, quando lhe confidenciei que desejaria fazer um vídeo do dia a dia da Rafa. Ele gostou da ideia. Empolgados, resolvemos incluir também outras mães com seus filhos especiais. O filme se chamou “Um dia especial” e foi produzido com o apoio da JICA (Japão), com direção de Yuri Amorim. Fez sua estreia em Tóquio e vem desde então fazendo sucesso no Brasil porque conta histórias lindas e comoventes. Ganhou dois prêmios no Festival “Assim vivemos”, do CCBB do Rio.

Por tudo isso, só tenho que agradecer e dizer: “Muito obrigada, Rafa!”

Ensinamentos da Rafaela

Ninguém está preparado para um filho especial, não passa pela nossa cabeça essa possibilidade. Então, o primeiro e mais importante ensinamento foi a aceitação. Aceitar as dificuldades, aceitar os desafios, aceitar tudo da melhor forma possível.

A Rafa também me ensinou a amar e a respeitar as diferenças, a pensar em inclusão todos os dias.

Aprendi como a mãe da Rafa a agradecer e a comemorar todas as pequenas conquistas dela, por mínimas que pareçam. Um simples levantar sozinha, engatinhar, sentar, ir ao banheiro. Cada conquista era um acontecimento, uma chuva de alegria e gratidão.

A Rafa é especial em tudo. Vejo felicidade estampada em seu rosto nas pequenas coisas do cotidiano. Quando vê uma onda no mar, uma pipa no céu, o balançar do galho de uma árvore.

Ela percebe que faz parte de uma família e se sente querida. Adora estar com as pessoas, valorizando o ser e não o ter.

É um ser puro. Não dá a mínima chance para o ódio, a inveja, o interesse, a esperteza, o rancor. Só quer dar e receber amor. Estas coisas me encantam, me orgulham, me fazem crescer.

Apesar de a Rafa não falar, nossa comunicação é perfeita. Nós nos entendemos bem porque falamos a linguagem do amor.

Nós nos conectamos sem wi-fi, sem iPhone, sem e-mail, sem WhatsApp.

A nossa rede é o olhar e a senha é o amor.

* * *

UMEI PETRÓPOLIS – Roda de conversa com os pais – junho/2017

Roda de conversa com pais

UMEI Petrópolis – junho 2017

  • Educar é ajudar a criança a dar o melhor de si mesma, e nunca encorajá-la a imitar qualquer outra;

  • Nós morreremos quando tivermos acabado de viver;

  • A história da infância determina amplamente o futuro;

  • Criar filho não é uma ciência exata e sim uma experiência criativa;

  • O respeito à personalidade da criança, que é única, é muito importante na sua educação;

  • Quanto mais respeitarmos a descoberta da individualidade, o seu desejo de separar-se, de ser autônomo e independente, melhor para a criança;

  • Os pais não devem ceder ao desejo de tentar criar o filho que gostariam de ter. Ao contrário, devem ajudá-lo a desenvolver-se plenamente, em seu próprio ritmo, naquilo que ele quer e pode ser, de acordo com seus dotes naturais e como consequência de suas experiências – isso talvez seja o mais difícil para qualquer mãe ou pai;

  • É importante estar seguro nas atitudes, pois os pais são toda a fonte de segurança de uma criança. A indecisão e a insegurança são piores do que a grande maioria dos possíveis erros de decisão. Não decidir, mostrar-se inseguro, ir no palpite de outras pessoas, isto sim é que é ruim para os pais e para os filhos;

  • A mãe boa não é a mãe que tudo supre, que dá tudo, que está sempre disponível – é sim a que deixa que apareça a falta para que esta criança tenha o desejo de buscar, de experimentar para além da relação com a mãe;

  • Use a sua autoridade, mas não seja autoritário.

  • Pais são ponte para o mundo;

  • Todo casal, em algum momento, tem suas brigas. E nem sempre conseguem que o desentendimento seja longe dos olhos e ouvidos dos filhos.

  • Casais têm duas atitudes quando se desacertam: há os que brigam abertamente e podem chegar até a agressão e os que brigam sem palavras, procurando ignorar um ao outro. De um jeito ou de outro a criança percebe o clima de tensão. E isso faz com que fique muito insegura e ansiosa, ela não entende completamente o que está se passando. Ela teme o abandono e ser agredida. Pior ainda: por um mecanismo ainda não explicado, a maioria atribui-se culpa na briga dos pais. Esse sentimento de culpa pode ser muito forte, tornando a criança desinteressada, passiva, tímida, nervosa, sujeita a dores de cabeça, enjoo e pode até somatizar ficando muito doente. Crianças pequenas quase sempre imaginam que são as responsáveis pela briga dos pais. É que, ainda egocêntricas, imaginam que tudo acontece por causa delas e isso faz com que se sintam culpadas. Para a criança, a pior coisa que pode acontecer é perder o amor dos pais. E com isso a cada briga se sente mais ameaçada, mais insegura, mais infeliz.

  • Quando os pais não se respeitam e não respeitam a criança, brigando permanentemente, é comum crises de choro, cobrir os olhos ou os ouvidos com as mãos, e a criança pode até entrar em choque. Algumas fingem total indiferença, como se já estivessem acostumadas, mas mesmo essas acabam não aguentando: ou assumem um comportamento rebelde, violento, ou vão se fechando cada vez mais, tornando-se apáticas e isoladas.

  • O comportamento da criança é socialmente adquirido, repetindo os pais, de certa forma, ela está tentando justificá-los.

  • Não é só a briga que faz mal à criança: é a ideia de que pessoas que se amam possam deixar de se amar – o que é uma ameaça direta a ela.

  • Criança ser usada na briga – sente-se ameaçada, está sendo um problema na vida dos pais.

  • Desaprovação é uma coisa; desamor é outra. Quando a mãe diz que só gosta da criança se ela for obediente, certamente está prejudicando a formação de sua personalidade. A criança pode lidar com a desaprovação, mas não suporta o desamor nem a ameaça de não ser amada.

  • Agressividade e violência na criança são um sinal evidente de falha dos pais, porque são uma reação natural de quem não tem uma oportunidade justa de desenvolver corretamente sua personalidade. Não culpem a criança, porque ela é a vítima.

  • Por volta dos três anos a criança quer brincar sem parar, mexe em tudo, desmonta, inventa, quer descobrir e experimentar tudo. Enquanto tem energia não consegue parar. Obrigá-la a parar por qualquer motivo causa reação. A dica é: avise-a com pelo menos 15 minutos de antecedência, da hora do banho, de comer, de dormir, ou seja, da hora de parar a brincadeira.

  • Os limites são muito importantes para a criança, antes mesmo que ela esteja madura e tenha consciência para aceitá-los. Mas, antes dos 6, 7 anos, ela não tem autocontrole nem consciência, o que significa dizer que é muito difícil controlar o que não acha que é errado.

  • A UMEI não existe para substituir os pais que não tem tempo para os filhos; mesmo com a melhor pré-escola, os pais são indispensáveis e insubstituíveis como os principais educadores da criança.

  • T. B. Brazelton: “A função do limite é a de transmitir valores”.

  • O LIMITE para valer tem que ser duradouro; a FAVOR e não CONTRA a pessoa.

  • ROTEIRO DE QUALIDADES DOS LIMITES:

  • Ser justo;

  • Ser necessário e indispensável;

  • Ser consistente (isto é, valer para sempre);

  • Ser coerente (quer dizer, valer tanto para a mãe quanto para o pai);

  • Ser claro, fácil para a pessoa entender;

  • Estar de acordo com o desenvolvimento da pessoa;

  • Ser possível de cumprir.

  • Mesmo que os limites tenham todas estas qualidades e que sejam aceitos pela pessoa, é certo que ela vai testá-los, vai tentar descumpri-los ou amenizá-los, vai procurar dias e horas que justifiquem uma exceção. O objetivo da resistência não é contestar os pais ou a autoridade deles, nem mesmo contestar os limites: é assegurar-se de que são mesmo pra valer e que são importantes, para que possa acreditar neles e assumi-los. Por isso mesmo é que a coerência e a consistência são fundamentais: sem eles a pessoa fica confusa a respeito da validade do limite, da sua importância, não consegue aceitá-lo nem cumprir o que os pais desejam.

  • Para internalizar um limite e fazer com que ele funcione, a pessoa não deve ter medo dos pais nem agir apenas automaticamente, mas deve estar consciente do limite e do motivo para agir ou deixar de agir.
  • Não se muda a regra do jogo em andamento.

  • POR QUE É PRECISO QUE OS PAIS DIGAM UMA, DUAS, TRÊS, MIL VEZES A MESMA COISA?

  • . Criança não é como adulto que é capaz de conter um comportamento, um impulso, uma vontade por conta própria. Ela ainda está aprendendo a fazer isso. Ela está em tempo de aprender, caso alguém lhe ensine. Os pais, muitas vezes, em vez de conter a criança e ensinar que ela pode aprender isso, esperam que ela se contenha. Mesmo já com idade suficiente para entender a explicação da mãe sobre os riscos de determinada situação, o filho não tem idade para resistir à tentação de fazer o que tanto gosta. Os pais não podem abandonar o filho à mercê de si mesmo; isso significa deixar de proteger, deixar de cuidar, deixar de expressar o amor que têm pelo filho. Isso significa deixar de ocupar o lugar de pai, de mãe, de quem deve educar.

  • A maneira como se disciplina uma criança tem enorme influência em sua formação. O método de disciplina é construtivo quando fornece uma conseqüência lógica ligada ao mau comportamento.

  • Se seu filho fez bagunça deve arrumar. Se estragou algo, deve consertar. O castigo desvinculado das ações passa a ser uma punição que gera raiva e ressentimento. De nada adiantaria impedir a criança de ver tv por que ela quebrou a janela. O melhor seria tirar o dinheiro da mesada para pagar o vidraceiro. Algumas vezes, a ação da criança produz uma conseqüência espontânea, como ao esquecer o dever em casa e não poder entregá-lo na escola. Ou quando não coloca a roupa suja no cesto e fica sem roupa limpa para usar. Em situações desse tipo é melhor não interferir e deixar que vá aprendendo sozinha.

  • O castigo faz sentido se ele for combinado antes com a criança.

  • DEPOIS DO AMOR O SENSO DE DISCIPLINA É O LEGADO MAIS IMPORTANTE QUE OS PAIS PODEM DEIXAR AOS FILHOS.

  • Disciplina significa ensinar, não castigar.

  • Há ocasiões em que o castigo faz parte do processo disciplinar – deve seguir-se imediatamente ao mau comportamento, ser breve e respeitar os sentimentos da criança. Depois de terminado o castigo é preciso assentar com a criança castigada e dizer-lhe: “nós amamos você, mas não podemos permitir que faça o que fez. Vai chegar o dia em que você vai aprender a se controlar e então não precisaremos mais de castigos”.

  • Uma disciplina coerente e reservada, que estabelece limites com firmeza e compreensão não representa uma ameaça à personalidade da criança. Muito ao contrário, faz parte de seu trabalho de aprender a conhecer-se.

  • A autodisciplina, que é o objetivo da disciplina, é atingida através de três estágios:

  • Testar os limites através da exploração;

  • Provocar, para que os outros deixem claro o que é ou não conveniente;

  • Internalizar estes limites anteriormente desconhecidos

  • O que todos nós, pais e educadores, buscamos para as pessoas com as quais convivemos é que tenham prazer em estar no mundo; é que possam contribuir para a construção de tempos mais humanos e para isso é necessário que tenhamos como objetivo a AUTONOMIA, ou seja, que esta pessoa seja capaz de tomar decisões, de se virar diante de situações de risco, que saiba se preservar se respeitando e aos que estão ao seu redor. A construção desta autonomia depende diretamente e intrinsecamente de nossa postura diante de nossos filhos e alunos. Como já disseram – um exemplo vale mais que mil palavras.

Maria Lúcia Pellegrinelli

Junho 2017


Veja a apresentação: clique aqui – Apresentação-maria-lucia-pellegrinelli

XVI CONGRESSO ESTADUAL DAS APAEs DE SANTA CATARINA

De 04 a 06 DE OUTUBRO DE 2017- JARAGUÁ DO SUL-SC

ESPINHOS DAS PALAVRAS

Esta história já foi escrita há tempos e ainda é tão atual…

Também ainda arranham-me os espinhos. Das palavras ditas e das silenciadas que o vento não levou.

O exercício do respeito cotidianamente me exige prontidão. E a disponibilidade de praticá-lo.

Em frente!

ESPINHOS DAS PALAVRAS

Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina.
Cora Coralina

Na espera telefônica, a gravação diz que aquela escola respeita a potencialidade de cada um, dando a todos condição de aprendizado. A voz sonora e melodiosa ainda chama a atenção para o fato de que naquela escola cada pessoa é única e sua individualidade é respeitada.

Diante de tal propaganda, lá foi a mãe, com grande expectativa, ver se a filha poderia ser escolhida para frequentar aquele ambiente. Aqui não se trata de escolher, e sim de ser escolhido. Essa inversão é curiosa e alarmante, pois uma escola que se diz de qualidade não escolhe. A escola que encara os desafios, especialmente o desafio da diversidade – no sentido mais humano que essa palavra entoa – e busca a qualidade para todos, de todas as maneiras e com todos os recursos, é a escola. Não necessita mais. Só ser escola.

Muito receptiva, a funcionária recebe carinhosamente a menina, com sete anos, para que esta passe três tardes sob o olhar das professoras, supervisoras, orientadoras. Querem ver se ela poderá frequentar a educação infantil (anteriormente chamada “jardim de infância”, lembram?).

A menina Gabriela considerava uma ideia ir para essa escola grande, cheia de meninos e rampa e elevador e cores… Esta escola que seria uma ideia e que convidou Gabriela para ser observada fez propaganda enganosa. Após os três dias, pelo telefone, a supervisora pedagógica me comunica que não está preparada para aceitá-la.

Mas como? Não veem potencialidade em cada um? Não disseram que a prática é fundamentada no fazer de cada aluno? O que eles viram do fazer de Gabriela em três dias? O alto padrão de ensino só é oferecido para escolhidos? Quais são os escolhidos? Suspeito que Gabriela não está nessa lista por um motivo muito simples: a condição de aprendizado deve ser mútua.

Explico: não é possível ensinar Gabriela sem aprender. Esse exercício se dá quando tiramos os olhos das dificuldades que ela possa ter e voltamos esse olhar para nós mesmos, para o nosso aprender. Onde está minha dificuldade em oferecer as oportunidades a Gabriela? Por que não alcanço Gabriela com este conteúdo? Afinal, qual hipótese de raciocínio ela está fazendo que não consigo entender?

Aí se encontra a qualidade do ensino. Essa estratégia criativa e tão simples é que faz possível a qualidade para todos: alunos, professores, funcionários.

A escola argumenta que não está preparada. Em seu alto padrão de ensino não cabe Gabriela. Alto padrão?

Como vão se preparar? O que falta para eles ganharem ao conviver com Gabriela? O que falta para eles se deliciarem com suas conquistas, sua inteligência, sua braveza? Sua vivacidade e perseverança insistem em estar no mundo para acordar e humanizar as pessoas. Querem ver?

Dia desses, no final da sessão de fisioterapia, conversávamos:

– Gabi, sua escola fica longe ou perto da sua casa?

Ela me respondeu: “Fica longe”.

– E como você vai para lá: de ônibus, de carro ou de especial?

– Eu vou de caminhonete.

Mas como? Eu sabia que o pai dela não tinha caminhonete. Também sabia que é ele quem leva os filhos para a escola (a mãe busca).

– Ah, você quer me dizer que gostaria de ir para a escola de caminhonete, né? Mas me conta, como você vai para a escola?

– Lúcia, você não entendeu. Eu vou de caminhonete para a escola.

­– Não, Gabi. Você queria ir, mas você vai de outro carro. Quem te leva?

– Meu pai.

– Ah, então, com qual carro seu pai leva você?

Tudo isso, esse diálogo um tanto irritante que ainda se prolongou, na tentativa de fazer Gabriela dizer o nome do carro que eu supostamente conhecia. Não adiantou. Ela insistia em dizer que ia de caminhonete e eu em não acreditar nela. Depois de muito ficar nesse embate, falei:

– Tá bom, nosso tempo está acabando. Vamos deixar registrado no seu caderno que você vai de caminhonete. Agora vamos pegar suas meias e sapatos porque está na hora.

Ela calmamente começou a calçar. Quando abrimos a porta, seu pai já estava esperando por ela.

– Ah, que bom que você já chegou – eu falei. – Hoje aconteceu uma coisa engraçada.

E contei a ele o sucedido. Finalizei assim: “Pois é, acho que ela queria ir de outro carro para a escola”!

O pai, todo feliz, olhando bem nos olhos da filha, me respondeu:

– Sabe o que é, Lúcia, eu comprei uma caminhonete.

Fiquei pasma. Imediatamente me agachei para ficar na altura da menininha de sete anos que me olhava desafiadora e me indagando: “Não falei?”.

– Gabriela, me perdoa. Você vai mesmo de caminhonete, né? Eu não acreditei.

Preferi acreditar na minha verdade, que considero tão absoluta… Ainda precisei de seu pai para reafirmar o que, de fato, é verdade.

Gabriela tem Síndrome de Down. Como sempre, saiu toda feliz do consultório. Já tinha me perdoado e saía perguntando ao pai pelos irmãos.

Eu fiquei ali, parada. Arranhavam-me por dentro os espinhos das minhas palavras. Da minha insistência em não reconhecer voz na pessoa da Gabriela. Que alívio nós duas sentimos quando o pai falou da existente caminhonete. Ela, por se ver reconhecida na verdade. Eu, por ver mais uma vez a pessoa Gabriela.

Estar no mundo e poder exercitar nesses momentos o que há de humanidade em nós todos é um privilégio. Humanizo-me ao conviver com Gabriela. Revejo-me em seu rosto amigo todas as vezes em que nos encontramos e reafirmamos o gosto de viver.

A escola com a propaganda enganosa também afirma que vencer o desafio do presente é o primeiro passo para o sucesso do futuro. Prefiro acreditar que o sucesso é vivido todo dia, junto com os desafios que se apresentam enormes e se tornam pequenos quando os encaramos cotidianamente.

Parece que não estou sozinha nessa crença. Gabriela já foi recebida em outra escola, grande, cheia de meninos e cores, onde estarão ela e seus irmãos (são dois). Vão enfrentar os desafios fazendo-os miudinhos.

Maria Lúcia Pellegrinelli

Intervenção Precoce – como estimular seu bebê

Intervenção Precoce – como estimular seu bebê

clipboard01A maior parte dos programas de estimulação precoce são dirigidos a crianças de 0 a 3 anos. Como é sabido, há grande variação no desenvolvimento das crianças e por isso é importante não fixar idades para a aquisição de habilidades.

Com o objetivo de contribuir para o desenvolvimento da criança trago aqui algumas sugestões do que fazer no dia a dia especialmente de crianças com atraso em seu desenvolvimento tanto de funções motoras quanto das mentais.

Essencial que, ao estimular, você se sinta seguro e tranquilo com a situação – que o ambiente seja favorável a uma intervenção prazerosa e agradável ao bebê.

O bebê molinho, menos ativo e o mais durinho, que por isso também fica menos ativo certamente terão conquistas mais tardias das diversas fases do desenvolvimento, isso não significa necessariamente que a qualidade das conquistas seja comprometida. Importante ressaltar que a qualidade do movimento adquirido é também nosso objetivo, além do movimento em si.

A estimulação procura dar ao bebê condições para desenvolver suas capacidades desde o nascimento. Isso se aplica a todas as crianças com ou sem atraso.

O termo mais correto seria Intervenção Precoce e não Estimulação, pois todas as atividades que se realizam com a criança são estímulos. Portanto, Intervenção Precoce é, na verdade, um estímulo direcionado.

Você deve observar o que o bebê faz com facilidade e o que é difícil para ele. Cada criança é única e individual, assim, a intervenção deve ser feita de acordo com o que ela apresenta e de acordo com suas capacidades.

A família não deve alterar drasticamente seu dia a dia para estimular seu bebê, os pais devem estar dispostos e com tempo para estimular a criança, é importante que as atividades sejam agradáveis para ambos.

Cada criança tem seu próprio ritmo que os pais ou cuidadores percebem e aprendem a respeitar.

Certamente quando a criança estiver calma, sem sono, seca e alimentada é a melhor hora para realizar os exercícios.

O desenvolvimento da criança depende muito do ambiente em que ela vive. Qualquer coisa pode ser um estímulo para ela: brinquedo colorido, música, conversa, o próprio movimento da casa ou do local onde esteja. Não é interessante oferecer muitos estímulos ao mesmo tempo – o excesso de estímulos pode confundir a criança, dificultar sua concentração.

É necessário mudarmos o bebê de posição diversas vezes ao dia, enquanto estiver acordado. Novas posições farão com que ele perceba as diferentes partes de seu corpo e o relacione com o ambiente. A mudança de local também o ajuda, é bom levá-lo a vários lugares da casa.

Desenvolvimento de zero a seis meses

As pessoas evoluem de uma total dependência quando são bebês, para a capacidade de andar e para a independência em um espaço extremamente curto de tempo. Durante os primeiros meses a aquisição motora mais importante é o controle de cabeça. Isso significa que a criança deve manter a cabeça alinhada ao corpo, qualquer que seja sua posição: deitada, assentada e, mais tarde, em pé. Nessa fase inicial, o bebê irá fortalecer os músculos das costas, do pescoço e dos ombros, permitindo que ele levante a cabeça quando deitado de bruços e até se apoie nos cotovelos e nas mãos. Ele aprenderá a rolar, depois conseguirá permanecer assentado com apoio e, mais tarde, sozinho.

Hipotonia

Os músculos de nosso corpo apresentam um estado de tensão, mesmo quando estamos dormindo ou em repouso. Esse estado é chamado tônus. A hipotonia muscular ou tônus muscular diminuído é muito comum em bebês com Síndrome de Down, por exemplo, isto é, seus músculos são mais molinhos e flácidos, embora o grau de hipotonia varie de criança para criança. A hipotonia diminui com a idade. O bebezinho hipotônico se movimenta menos. Quando deitado de costas suas perninhas ficam exageradamente abertas, ele demora mais para sustentar a cabeça, assentar, ficar de pé e pode também ter dificuldades para mamar.

O tônus muscular precisa ser suficientemente alto para nos manter contra a gravidade e suficientemente baixo para que possamos nos movimentar. É necessário o diálogo tônico para o equilíbrio.

Como a hipotonia deixa o bebê mais molinho, é importante realizar os exercícios quando ele estiver desperto. Além disso, para ele colaborar mais com a estimulação, você pode fazer algumas brincadeiras que o deixarão mais alerta e participativo.

Segure-o no colo e balance-o de um lado para o outro, para frente e para trás em várias direções – como na Fig. 1.

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Outro modo de estimulá-lo é colocando-o assentado em seu colo, com as pernas sobre as suas e o corpo apoiado no seu – Fig. 2 –, e assim dar pequenos pulinhos como se fosse brincar de cavalinho.

Para o bebê com hipertonia (mais durinho) não é interessante o cavalinho da Fig. 2, pois esse movimento irá aumentar ainda mais seu tônus. Já o movimento da Fig. 1 fará bem a ele.

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Quando estiver assentado, conversando, assistindo TV, coloque o bebê de bruços sobre suas pernas, deixando os bracinhos livres e dê estímulos com suas mãos na cabeça e nos pés para que ele se movimente. Emita sons agradáveis para ele ouvir. Fig.3

3

Coloque-o também de costas sobre suas pernas, brincando com ele, estimulando-o a pegar sua mão. Como você fez anteriormente, dê leves estímulos nos seus pés, empurrando-os para baixo. Fig. 4

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Crianças com hipotonia (mais molinhas) às vezes têm mais dificuldade para sugar o leite e assim precisam de mais tempo para mamar o suficiente. Os bebês alimentados no peito têm maior resistência, melhor ganho de peso e chance de maior contato afetivo com a mãe.

Quando o bebê for alimentado com mamadeira, o bico deve ser ortodôntico e com furo pequeno para que o líquido saia em gotas. Isso estimula a musculatura da boca e da face, preparando-a para movimentos usados na fala.

A posição indicada para a amamentação deve ser: o bebê com os dois braços para frente e a mãe com seu braço erguido levemente apoiando a parte superior da cabeça do bebê, para que ela não fique caída para trás.

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A postura correta na amamentação é tão valiosa quanto um exercício específico. A mamadeira, quando utilizada, deve formar um ângulo de 90 graus com a cabeça do bebê – como na Fig. 6.

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Evite deixar o bebê muito tempo na mesma posição. De lado e de bruços são posições estimulantes e adequadas.

A posição de bruços estimula o controle de cabeça e exercita a musculatura do tronco e do pescoço. Deve ficar nessa posição quando já consegue se manter com apoio dos cotovelos e movimentando a cabeça. A criança pode ficar nessa posição sem travesseiro já nas primeiras semanas de vida, sempre com a supervisão de um adulto. A partir dos cinco meses, você já pode deixá-la no chão. Fig. 7

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Se o bebê, ao ficar de barriga para cima, deixa as perninhas muito abertas pela hipotonia, é interessante manter as pernas unidas com o uso de travesseiro ou almofada como na Fig. 8.

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A posição mais adequada para dormir é de lado, com um travesseiro apoiando-o nas costas – Fig. 9. Evite que ele durma de bruços, o que pode dificultar a respiração.

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Para carregar a criança no colo, deve levá-la ora no braço direito, ora no esquerdo, formando uma cadeira com seus braços mantendo as perninhas juntas como na Fig. 10.

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A hora do banho é muito boa para estimulação – com brincadeiras, procure estimular o corpo da criança principalmente a barriga, as costas, os pés, a palma das mãos com uma esponja mais áspera ou pano atoalhado, com texturas diversas. Isso estimula a sensibilidade da pele do bebê. Converse com o bebê, conte o que está fazendo, cante. Brinque com o tom e a altura de sua voz, isso chama a atenção da criança. Fig. 11

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Ao vesti-lo, se possível, deixe seus pés e mãos livres para que ele possa tocar seus pés e movimentar-se.

Brinquedos

Os brinquedos objetivam estimular o bebê na área motora e sensorial (visão, audição, tato, olfato). Use objetos com cores vivas, brilhantes, de formas e tamanhos diferentes, que produzam sons e efeitos diversos, com materiais variados, como pano, espuma, plástico, metal, madeira. É importante lembrar que é por meio da brincadeira que a criança desenvolve a percepção do espaço, aprende a relacionar-se com o outro e a descobrir e descobrir-se. O brinquedo favorece o relacionamento da criança com o ambiente, a criatividade e a autoconfiança.

Todo bebê leva à boca o que estiver ao seu alcance, pois a primeira forma de explorar o ambiente é por meio da boca e, mais tarde, da visão e do tato. Por isso, evite objetos sujos, cortantes, pontiagudos.

Brinquedos no berço constituem uma fonte de estímulo visual. Se a posição dos brinquedos for trocada de tempos em tempos (algumas semanas), o bebê será ainda mais estimulado na área da visão. Mais tarde, quando colocar o bebê reclinado, ele poderá tocar com as mãos e os pés brinquedos que produzam som. A criança aos poucos aprenderá que o som acontece quando ela encosta no objeto. Nesta fase, caixinha de música, por exemplo, é adequada e estimulante. Fig. 12

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Exercícios

Alguns exercícios feitos regularmente também contribuem para o desenvolvimento do bebê.

Inicie balançando a criança de um lado para o outro, para frente e para trás. Esse é um bom exercício para estimular o equilíbrio.

Depois coloque o bebê de bruços, de modo que ele possa olhar um objeto colocado não muito distante (por volta de 30 cm). Utilize um rolinho de espuma ou uma toalha embaixo de seu peito, mantendo os braços apoiados à frente. O rolo não deve ser muito grande para não forçar a coluna do bebê. Fig. 13

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Chame sua atenção para que ele possa virar a cabeça para um lado e para o outro. Como ele está desenvolvendo a visão brinquedos com cores fortes são bem-vindos.

Com a criança de barriga para cima, faça-a rolar lentamente para um lado e para o outro, olhando objetos coloridos colocados ao lado. Fig. 14

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Se você der um apoio no quadril ou ombro do bebê, ele virará mais facilmente. Tenha o cuidado de não fazer o movimento por ele, a ideia é estimulá-lo a fazer o movimento por si mesmo. Cuide para que o braço que fica por baixo fique livre à frente do corpo.

Coloque a criança no chão ou numa superfície firme, de bruços, com um rolinho debaixo do peito. Espalhe poucos brinquedos coloridos à sua frente para chamar sua atenção. Você pode mantê-la pelas coxas ou pelo quadril, empurrando-a lentamente para frente e para trás. Fig. 15 Esses exercícios ajudam a fortalecer a musculatura do pescoço e do tronco.

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Faça barulhos com chocalho, guizo, apito, palmas, música em torno da cabeça do bebê para que ele olhe na direção dos sons. Fig. 16

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Segure o bebê em pé, apoiado, de costas para você, encostado em seu corpo, para que ele sinta o peso sobre os pés. Fig. 17. Sustente com apoio o quadril e o tronco da criança, mas deixe seus braços livres.

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Estimule-o a bater palmas segurando nos cotovelos Fig. 18. Ou então coloque o bebê assentado apoiado em almofadas, chamando a atenção dele com brinquedos e com sons para que ele tente pegar ou virar a cabeça.

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Dê à criança bichinhos de borracha bem macios que tenham pontas (rabinho, orelhas, etc.) para que ele coloque na boca – isso faz com que movimente a língua e traz sensações agradáveis.

Com a criança deitada de costas, estimule a virar de lado e a apoiar o peso sobre o cotovelo. Ajude a elevar o ombro e cabeça do chão, como se fosse assentar. Chame sua atenção com brinquedos coloridos e sons. Fig. 19.

19

Você também pode fazer o exercício inverso: com a criança assentada, ajude-a a deitar, primeiro sobre um lado e depois de costas. Evite que ela desmorone, é necessário aprender a controlar a cabeça.
Enfim, tão importante quanto a estimulação física é o contato com seu bebê. Converse sempre com ele, se estiver triste diga a ele o que entristece; se alegre, conte o motivo da alegria, fale de suas frustrações e de suas realizações, de seu amor incondicional e de suas dúvidas. Mantenha-o próximo a você para aquecê-lo e protegê-lo.

O bebê cresce e assim aumentam suas chances de se tornar um adulto com respeito e respeitado pelo mundo.

PS: Estas observações e atividades também são válidas e importantes para pessoas que trabalham com crianças.

Fonte: cartilha escrita por Denise A. S. Batista, Maria Cecília S. de Oliveira, Maria Teresa G. R. Campos, Nina A. B. Pagnan, Sonia Casarin.

 

INCLUSÃO – ESCOLA PARA TODOS

Clipboard01Maria Teresa Eglér Mantoan é uma pessoa admirável. Tenho por ela grande apreço. Doutora em educação, é referência mundial em inclusão de pessoas com deficiência nas escolas. Abaixo temos um texto de sua autoria que nos orienta, nos ensina e nos inspira a incluir.

Boa leitura!

Todas as crianças são bem-vindas à escola

Maria Teresa Eglér Mantoan
Universidade Estadual de Campinas / Unicamp
Laboratório de Estudos e Pesquisas em Ensino e Reabilitação de Pessoas com Deficiência – LEPED/ FE/ Unicamp

A inclusão é uma inovação, cujo sentido tem sido muito distorcido e um movimento muito polemizado pelos mais diferentes segmentos educacionais e sociais. No entanto, inserir alunos com déficits de toda ordem, permanentes ou temporários, mais graves ou menos severos no ensino regular nada mais é do que garantir o direito de todos à educação – e assim diz a Constituição!

Inovar não tem necessariamente o sentido do inusitado. As grandes inovações estão, muitas vezes na concretização do óbvio, do simples, do que é possível fazer, mas que precisa ser desvelado, para que possa ser compreendido por todos e aceito sem outras resistências, senão aquelas que dão brilho e vigor ao debate das novidades.

O objetivo de nossa participação neste evento é clarear o sentido da inclusão, como inovação, tornando-o compreensível, aos que se interessam pela educação como um direito de todos, que precisa ser respeitado. Pretendemos também demonstrar a viabilidade da inclusão pela transformação geral das escolas, visando a atender aos princípios deste novo paradigma educacional.

Para descrever o nosso caminho na direção das escolas inclusivas vamos focalizar nossas experiências, no cenário educacional brasileiro sob três ângulos: o dos desafios provocados por essa inovação, o das ações no sentido de efetivá-la nas turmas escolares, incluindo o trabalho de formação de professores e, finalmente o das perspectivas que se abrem à educação escolar, a partir de sua implementação. 

UMA EDUCAÇÃO PARA TODOS

O princípio democrático da educação para todos só se evidencia nos sistemas educacionais que se especializam em todos os alunos, não apenas em alguns deles, os alunos com deficiência. A inclusão, como consequência de um ensino de qualidade para todos os alunos provoca e exige da escola brasileira novos posicionamentos e é um motivo a mais para que o ensino se modernize e para que os professores aperfeiçoem as suas práticas. É uma inovação que implica num esforço de atualização e reestruturação das condições atuais da maioria de nossas escolas de nível básico.

O motivo que sustenta a luta pela inclusão como uma nova perspectiva para as pessoas com deficiência é, sem dúvida, a qualidade de ensino nas escolas públicas e privadas, de modo que se tornem aptas para responder às necessidades de cada um de seus alunos, de acordo com suas especificidades, sem cair nas teias da educação especial e suas modalidades de exclusão.

O sucesso da inclusão de alunos com deficiência na escola regular decorre, portanto, das possibilidades de se conseguir progressos significativos desses alunos na escolaridade, por meio da adequação das práticas pedagógicas à diversidade dos aprendizes. E só se consegue atingir esse sucesso, quando a escola regular assume que as dificuldades de alguns alunos não são apenas deles, mas resultam em grande parte do modo como o ensino é ministrado, a aprendizagem é concebida e avaliada. Pois não apenas as deficientes são excluídas, mas também as que são pobres, as que não vão às aulas porque trabalham, as que pertencem a grupos discriminados, as que de tanto repetir desistiram de estudar.

OS DESAFIOS

Toda criança precisa da escola para aprender e não para marcar passo ou ser segregada em classes especiais e atendimentos à parte. A trajetória escolar não pode ser comparada a um rio perigoso e ameaçador, em cujas águas os alunos podem afundar. Mas há sistemas organizacionais de ensino que tornam esse percurso muito difícil de ser vencido, uma verdadeira competição entre a correnteza do rio e a força dos que querem se manter no seu curso principal.

Um desses sistemas, que muito apropriadamente se denomina “de cascata”, prevê a exclusão de algumas crianças, que têm déficits temporários ou permanentes e em função dos quais apresentam dificuldades para aprender. Esse sistema contrapõe-se à melhoria do ensino nas escolas, pois mantém ativo, o ensino especial, que atende aos alunos que caíram na cascata, por não conseguirem corresponder às exigências e expectativas da escola regular. Para se evitar a queda na cascata, na maioria das vezes sem volta, é preciso remar contra a correnteza, ou seja, enfrentar os desafios da inclusão: o ensino de baixa qualidade e o subsistema de ensino especial, desvinculado e justaposto ao regular.

Priorizar a qualidade do ensino regular é, pois, um desafio que precisa ser assumido por todos os educadores. É um compromisso inadiável das escolas, pois a educação básica é um dos fatores do desenvolvimento econômico e social. Trata-se de uma tarefa possível de ser realizada, mas é impossível de se efetivar por meio dos modelos tradicionais de organização do sistema escolar.

Se hoje já podemos contar com uma Lei Educacional que propõe e viabiliza novas alternativas para melhoria do ensino nas escolas, estas ainda estão longe, na maioria dos casos, de se tornarem inclusivas, isto é, abertas a todos os alunos, indistinta e incondicionalmente. O que existe em geral são projetos de inclusão parcial, que não estão associados a mudanças de base nas escolas e que continuam a atender aos alunos com deficiência em espaços escolares semi ou totalmente segregados (classes especiais, salas de recurso, turmas de aceleração, escolas especiais, os serviços de itinerância).

As escolas que não estão atendendo alunos com deficiência em suas turmas regulares se justificam, na maioria das vezes pelo despreparo dos seus professores para esse fim. Existem também as que não acreditam nos benefícios que esses alunos poderão tirar da nova situação, especialmente os casos mais graves, pois não teriam condições de acompanhar os avanços dos demais colegas e seriam ainda mais marginalizados e discriminados do que nas classes e escolas especiais.

Em ambas as circunstâncias, o que fica evidenciado é a necessidade de se redefinir e de se colocar em ação novas alternativas e práticas pedagógicas, que favoreçam a todos os alunos, o que, implica na atualização e desenvolvimento de conceitos e em aplicações educacionais compatíveis com esse grande desafio.

Muda então a escola ou mudam os alunos, para se ajustarem às suas velhas exigências? Ensino especializado em todas as crianças ou ensino especial para deficientes? Professores que se aperfeiçoam para exercer suas funções, atendendo às peculiaridades de todos os alunos, ou professores especializados para ensinar aos que não aprendem e aos que não sabem ensinar? 

AS AÇÕES

Visando os aspectos organizacionais

A nosso ver é preciso mudar a escola e mais precisamente o ensino nelas ministrado. A escola aberta para todos é a grande meta e, ao mesmo tempo, o grande problema da educação na virada do século.

Mudar a escola é enfrentar uma tarefa que exige trabalho em muitas frentes. Destacaremos as que consideramos primordiais, para que se possa transformar a escola, em direção de um ensino de qualidade e, em consequência, inclusivo.

Temos de agir urgentemente:

  • Colocando a aprendizagem como o eixo das escolas, porque escola foi feita para fazer com que todos os alunos aprendam;

  • Garantindo tempo para que todos possam aprender e reprovando a repetência;

  • Abrindo espaço para que a cooperação, o diálogo, a solidariedade, a criatividade e o espírito crítico sejam exercitados nas escolas, por professores, administradores, funcionários e alunos, pois são habilidades mínimas para o exercício da verdadeira cidadania;

  • Estimulando, formando continuamente e valorizando o professor que é o responsável pela tarefa fundamental da escola – a aprendizagem dos alunos;

  • Elaborando planos de cargos e aumentando salários, realizando concursos públicos de ingresso, acesso e remoção de professores.

Que ações implementar para que a escola mude ?

Para melhorar as condições pelas quais o ensino é ministrado nas escolas, visando, universalizar o acesso, ou seja, a inclusão de todos, incondicionalmente, nas turmas escolares e democratizar a educação, sugerimos o que, felizmente, já está ocorrendo em muitas redes de ensino, verdadeiras vitrines que expõem o sucesso da inclusão.

A primeira sugestão para que se caminhe para uma educação de qualidade é estimular as escolas para que elaborem com autonomia e de forma participativa o seu Projeto Político Pedagógico, diagnosticando a demanda, ou seja, verificando quantos são os alunos, onde estão e porque alguns estão fora da escola.

Sem que a escola conheça os seus alunos e os que estão à margem dela, não será possível elaborar um currículo escolar que reflita o meio social e cultural em que se insere. A integração entre as áreas do conhecimento e a concepção transversal das novas propostas de organização curricular consideram as disciplinas acadêmicas como meios e não fins em si mesmas e partem do respeito à realidade do aluno, de suas experiências de vida cotidiana, para chegar à sistematização do saber.

Como essa experiência varia entre os alunos, mesmo sendo membros de uma mesma comunidade, a implantação dos ciclos de formação é uma solução justa, embora ainda muito incompreendida pelos professores e pais, por ser uma novidade e por estar sendo ainda pouco difundida e aplicada pelas redes de ensino. De fato, se dermos mais tempo para que os alunos aprendam, eliminando a seriação, a reprovação, nas passagens de um ano para outro, estaremos adequando o processo de aprendizagem ao ritmo e condições de desenvolvimento dos aprendizes – um dos princípios das escolas de qualidade para todos

Por outro lado, a inclusão não implica em que se desenvolva um ensino individualizado para os alunos que apresentam déficits intelectuais, problemas de aprendizagem e outros, relacionados ao desempenho escolar. Na visão inclusiva, não se segregam os atendimentos, seja dentro ou fora das salas de aula e, portanto, nenhum aluno é encaminhado às salas de reforço ou aprende, a partir de currículos adaptados. O professor não predetermina a extensão e a profundidade dos conteúdos a serem construídos pelos alunos, nem facilita as atividades para alguns, porque, de antemão já prevê a dificuldade que possam encontrar para realizá-las. Porque é o aluno que se adapta ao novo conhecimento e só ele é capaz de regular o seu processo de construção intelectual.

A avaliação constitui outro entrave à implementação da inclusão. É urgente suprimir o caráter classificatório da avaliação escolar, através de notas, provas, pela visão diagnóstica desse processo que deverá ser contínuo e qualitativo, visando depurar o ensino e torná-lo cada vez mais adequado e eficiente à aprendizagem de todos os alunos. Essa medida já diminuiria substancialmente o número de alunos que são indevidamente avaliados e categorizados como deficientes, nas escolas regulares.

A aprendizagem como o centro das atividades escolares e o sucesso dos alunos, como a meta da escola independentemente do nível de desempenho a que cada um seja capaz de chegar são condições de base para que se caminhe na direção de escolas acolhedoras. O sentido desse acolhimento não é o da aceitação passiva das possibilidades de cada um, mas o de serem receptivas a todas as crianças, pois as escolas existem, para formar as novas gerações, e não apenas alguns de seus futuros membros, os mais privilegiados.

A inclusão não prevê a utilização de métodos e técnicas de ensino específicas para esta ou aquela deficiência. Os alunos aprendem até o limite em que conseguem chegar, se o ensino for de qualidade, isto é, se o professor considera o nível de possibilidades de desenvolvimento de cada um e explora essas possibilidades, por meio de atividades abertas, nas quais cada aluno se enquadra por si mesmo, na medida de seus interesses e necessidades, seja para construir uma idéia, ou resolver um problema, realizar uma tarefa. Eis aí um grande desafio a ser enfrentado pelas escolas regulares tradicionais, cujo paradigma é conteudista, e baseado na transmissão dos conhecimentos.

O trabalho coletivo e diversificado nas turmas e na escola como um todo é compatível com a vocação da escola de formar as gerações. É nos bancos escolares que aprendemos a viver entre os nossos pares, a dividir as responsabilidades, repartir as tarefas. O exercício dessas ações desenvolve a cooperação, o sentido de se trabalhar e produzir em grupo, o reconhecimento da diversidade dos talentos humanos e a valorização do trabalho de cada pessoa para a consecução de metas comuns de um mesmo grupo.

A tutoria nas salas de aula tem sido uma solução natural, que pode ajudar muito os alunos, desenvolvendo neles o hábito de compartilhar o saber. O apoio ao colega com dificuldade é uma atitude extremamente útil e humana e que tem sido muito pouco desenvolvida nas escolas, sempre tão competitivas e despreocupadas com a construção de valores e de atitudes morais.

Além dessas sugestões, referentes ao ensino nas escolas, a educação de qualidade para todos e a inclusão implicam em mudanças de outras condições relativas à administração e aos papéis desempenhados pelos membros da organização escolar.

Nesse sentido é primordial que sejam revistos os papéis desempenhados pelos diretores e coordenadores, no sentido de que ultrapassem o teor controlador, fiscalizador e burocrático de suas funções pelo trabalho de apoio, orientação do professor e de toda a comunidade escolar.

A descentralização da gestão administrativa, por sua vez, promove uma maior autonomia pedagógica, administrativa e financeira de recursos materiais e humanos das escolas, por meio dos conselhos, colegiados, assembleias de pais e de alunos. Mudam-se os rumos da administração escolar e com isso o aspecto pedagógico das funções do diretor e dos coordenadores e supervisores emerge. Deixam de existir os motivos pelos quais esses profissionais ficam confinados aos gabinetes, às questões burocráticas, sem tempo para conhecer e participar do que acontece nas salas de aula.

Visando a formação continuada dos professores

Sabemos que, no geral, os professores são bastante resistentes às inovações educacionais, como a inclusão. A tendência é se refugiarem no impossível, considerando que a proposta de uma educação para todos é válida, porém utópica, impossível de ser concretizada com muitos alunos e nas circunstâncias em que se trabalha, hoje, nas escolas, principalmente nas redes públicas de ensino.

A maioria dos professores tem uma visão funcional do ensino e tudo o que ameaça romper o esquema de trabalho prático que aprenderam a aplicar em suas salas de aula é rejeitado. Também reconhecemos que as inovações educacionais abalam a identidade profissional, e o lugar conquistado pelos professores em uma dada estrutura ou sistema de ensino, atentando contra a experiência, os conhecimentos e o esforço que fizeram para adquiri-los.

Os professores, como qualquer ser humano, tendem a adaptar uma situação nova às anteriores. E o que é habitual, no caso dos cursos de formação inicial e na educação continuada, é a separação entre teoria e prática. Essa visão dicotômica do ensino dificulta a nossa atuação, como formadores. Os professores reagem inicialmente à nossa metodologia, porque estão habituados a aprender de maneira incompleta, fragmentada e essencialmente instrucional. Eles esperam aprender uma prática inclusiva, ou melhor, uma formação que lhes permita aplicar esquemas de trabalho pré-definidos às suas salas de aulas, garantindo-lhes a solução dos problemas que presumem encontrar nas escolas inclusivas.

Em uma palavra, os professores acreditam que a formação em serviço lhes assegurará o preparo de que necessitam para se especializarem em todos os alunos, mas concebem essa formação como sendo mais um curso de extensão, de especialização com uma terminalidade e com um certificado que lhes convalida a capacidade de efetivar a inclusão escolar. Eles introjetaram o papel de praticantes e esperam que os formadores lhes ensinem o que é preciso fazer, para trabalhar com níveis diferentes de desempenho escolar, transmitindo-lhes os novos conhecimentos, conduzindo-lhes da mesma maneira como geralmente trabalham com seus próprios alunos. Acreditam que os conhecimentos que lhes faltam para ensinar as crianças com deficiência ou dificuldade de aprender por outras incontáveis causas referem-se primordialmente à conceituação, etiologia, prognósticos das deficiências e que precisam conhecer e saber aplicar métodos e técnicas específicas para a aprendizagem escolar desses alunos. Os dirigentes das redes de ensino e das escolas particulares também pretendem o mesmo, num primeiro momento, em que solicitam a nossa colaboração.

Se de um lado é preciso continuar investindo maciçamente na direção da formação de profissionais qualificados, não se pode descuidar da realização dessa formação e estar atento ao modo pelo qual os professores aprendem para se profissionalizar e para aperfeiçoar seus conhecimentos pedagógicos, assim como reagem às novidades, aos novos possíveis educacionais.

A metodologia

Diante dessas circunstâncias e para que possamos atingir nossos propósitos de formar professores para uma escola de qualidade para todos, idealizamos um projeto de formação que tem sido adotado por redes de ensino públicas e escolas particulares brasileiras, desde 1991.

Nossa proposta de formação se baseia em princípios educacionais construtivistas, pois reconhecemos que a cooperação, a autonomia intelectual e social, a aprendizagem ativa e a cooperação são condições que propiciam o desenvolvimento global de todos os alunos, assim como a capacitação e o aprimoramento profissional dos professores.

Nesse contexto, o professor é uma referência para o aluno e não apenas um mero instrutor, pois enfatizamos a importância de seu papel tanto na construção do conhecimento, como na formação de atitudes e valores do futuro cidadão. Assim sendo, a formação continuada vai além dos aspectos instrumentais de ensino.

A metodologia que adotamos reconhece que o professor, assim como o seu aluno, não aprende no vazio. Assim sendo, partimos do “saber fazer” desses profissionais, que já possuem conhecimentos, experiências, crenças, esquemas de trabalho, ao entrar em contato com a inclusão ou qualquer outra inovação.

Em nossos projetos de aprimoramento e atualização do professor consideramos fundamental o exercício constante de reflexão e o compartilhamento de idéias, sentimentos, ações entre os professores, diretores, coordenadores da escola. Interessam-nos as experiências concretas, os problemas reais, as situações do dia-a-dia que desequilibram o trabalho, nas salas de aula. Eles são a matéria-prima das mudanças. O questionamento da própria prática, as comparações, a análise das circunstâncias e dos fatos que provocam perturbações e/ou respondem pelo sucesso vão definindo, pouco a pouco, aos professores as suas “teorias pedagógicas”. Pretendemos que os professores sejam capazes de explicar o que outrora só sabiam reproduzir, a partir do que aprendiam em cursos, oficinas, palestras, exclusivamente. Incentivamos os professores para que interajam com seus colegas com regularidade, estudem juntos, com e sem o nosso apoio técnico e que estejam abertos para colaborar com seus pares, na busca dos caminhos pedagógicos da inclusão.

O fato de os professores fundamentarem suas práticas e argumentos pedagógicos no senso comum dificulta a explicitação dos problemas de aprendizagem. Essa dificuldade pode mudar o rumo da trajetória escolar de alunos que muitas vezes são encaminhados indevidamente para as modalidades do ensino especial e outras opções segregativas de atendimento educacional.

Daí a necessidade de se formarem grupos de estudos nas escolas, para a discussão e a compreensão dos problemas educacionais, à luz do conhecimento científico e interdisciplinarmente, se possível. Os grupos são organizados espontaneamente pelos próprios professores, no horário em que estão nas escolas e são acompanhados, inicialmente, pela equipe da rede de ensino, encarregada da coordenação das ações de formação. As reuniões têm como ponto de partida, as necessidades e interesse comuns de alguns professores de esclarecer situações e de aperfeiçoar o modo como trabalham nas salas de aula. O foco dos estudos está na resolução dos problemas de aprendizagem, o que remete à análise de como o ensino está sendo ministrado, pois o processo de construção do conhecimento é interativo e os seus dois lados devem ser analisados, quando se quer esclarecê-lo.

Participam dos grupos, além dos professores, o diretor da escola, coordenadores, mas há grupos que se formam entre membros de diversas escolas, que estejam voltados para um mesmo tema de estudo, como por exemplo a indisciplina, a sexualidade, a ética e a violência, a avaliação e outros assuntos pertinentes.

A equipe responsável pela coordenação da formação é constituída por professores, coordenadores, que são da própria rede de ensino, e por parceiros de outras Secretarias afins: Saúde, Esportes, Cultura. Nós trabalhamos diretamente com esses profissionais, mas também participamos do trabalho nas escolas, acompanhando-as esporadicamente, quando somos solicitados – minha equipe de alunos e eu.

Os Centros de Desenvolvimento do Professor

Algumas redes de ensino criaram o que chamamos de Centros de Desenvolvimento do Professor, os quais representam um avanço nessa nova direção de formação continuada, que estamos propondo, pois sediam a maioria das ações de aprimoramento da rede, promovendo eventos de pequeno, médio e grande porte, como workshops, seminários, entrevistas, com especialistas, fóruns e outras atividades. Seja atendendo individualmente, como em pequenos e grandes grupos os professores, pais, comunidade. Os referidos Centros também se dedicam ao encaminhamento e atendimento de alunos que necessitam de tratamento clínico, em áreas que não sejam a escolar, propriamente dita.

Temos estimulado em todas as redes em que atuamos a criação dos centros, pois a nosso ver, eles resumem o que pretendemos, quando nos referimos à formação continuada – um local em que o professor e toda comunidade escolar vem para realimentar o conhecimento pedagógico, além de servir igualmente aos alunos e a todos os interessados pela educação, no município.

A nosso ver, os cursos e demais atividades de formação em serviço, habitualmente oferecidos aos professores não estão obtendo o retorno que o investimento propõe. Temos insistido na criação desses Centros, porque a existência de seus serviços redireciona o que já é usual nas redes de ensino, ou seja, o apoio ao professor, pelos itinerantes. Não concordamos com esse suporte a alunos e professores com dificuldades, porque “apagam incêndio”, agem sobre os sintomas, oferecem soluções particularizadas, locais, mas não vão a fundo no problema e suas causas. Os serviços itinerantes de apoio não solicitam o professor, no sentido de que se mobilize, de que reveja sua prática. Sua existência não obriga o professor a assumir a responsabilidade pela aprendizagem de todos os alunos, pois já existe um especialista para atender aos casos mais difíceis, que são os que justamente fazem o professor evoluir, na maneira de proceder com a turma toda. Porque se um aluno não vai bem, seja ele uma pessoa com ou sem deficiência, o problema precisa ser analisado não apenas com relação às reações dessa ou de outra criança, mas ao grupo como um todo, ao ensino que está sendo ministrado, para que os alunos possam aprender, naquele grupo.

A itinerância não faz evoluir as práticas, o conhecimento pedagógico dos professores. Ë, em nossa opinião, mais uma modalidade da educação especial que acomoda o professor do ensino regular, tirando-lhe a oportunidade de crescer, de sentir a necessidade de buscar soluções e não aguardar que alguém de fora venha, regularmente, para resolver seus problemas. Esse serviço igualmente reforça a idéia de que os problemas de aprendizagem são sempre do aluno e que ó o especialista poderá se incumbir de removê-los, com adequação e eficiência.

O tipo de formação que estamos implementando para tornar possível a inclusão implica no estabelecimento de parcerias entre professores, alunos, escolas, profissionais de outras áreas afins, Universidades, para que possa se manter ativa e capaz de fazer frente às inúmeras solicitações que essa modalidade de trabalho provoca nos interessados. Por outro lado, essas parcerias ensejam o desenvolvimento de outras ações, entre as quais a investigação educacional e em outros ramos do conhecimento. São nessas redes e a partir dessa formação que estamos pesquisando e orientando trabalhos de nossos alunos de graduação e pós-graduação da Faculdade de Educação / Unicamp e onde estamos observando os efeitos desse trabalho, nas redes.

Não dispensamos os cursos, oficinas e outros eventos de atualização e de aperfeiçoamento, quando estes são reivindicados pelo professor e nesse sentido a parceria com outros grupos de pesquisa da Unicamp e colegas de outras Universidades têm sido muito eficiente. Mas há cursos que oferecemos aos professores, que são ministrados por seus colegas da própria rede, quando estes se dispõem a oferecê-los ou são convidados por nós, ao conhecermos o valor de sua contribuição para os demais.

As escolas e professores com os quais estamos trabalhando já apresentam sintomas pelos quais podemos perceber que estão evoluindo dia -a- dia para uma Educação de qualidade para Todos. Esses sintomas podem ser resumidos no que segue:

  • Reconhecimento e valorização da diversidade, como elemento enriquecedor do processo de ensino e aprendizagem;

  • Professores conscientes do modo como atuam, para promover a aprendizagem de todos os alunos;

  • Cooperação entre os implicados no processo educativo – dentro e fora da escola;

  • Valorização do processo sobre o produto da aprendizagem;

  • Enfoques curriculares, metodológicos e estratégias pedagógicas que possibilitam a construção coletiva do conhecimento.

É preciso, contudo, considerar que a avaliação dos efeitos de nossos projetos não se centra no aproveitamento de alguns alunos, os deficientes, nas classes regulares. Embora estes casos sejam objeto de nossa atenção, queremos acima de tudo saber se os professores evoluíram na sua maneira de fazer acontecer a aprendizagem nas suas salas de aula; se as escolas se transformaram, se as crianças estão sendo respeitadas nas suas possibilidades de avançar, autonomamente, na construção dos conhecimentos acadêmicos; se estes estão sendo construídos no coletivo escolar, em clima de solidariedade; se a as relações entre as crianças, pais, professores e toda a comunidade escolar se estreitaram, nos laços da cooperação, do diálogo, fruto de um exercício diário de compartilhamento de seus deveres, problemas, sucessos.

Outras alternativas de formação

Para ampliar essas parcerias estamos utilizando também as redes de comunicação à distância para intercâmbios de experiências entre alunos e profissionais da educação, pais e comunidade. Embora ainda incipiente, o Caleidoscópio – Um Projeto de Educação Para Todos é o nosso site na Internet e por meio deste hipertexto estamos trabalhando no sentido de provocar a interatividade presencial e virtual entre as escolas, como mais uma alternativa de formação continuada, que envolve os alunos, as escolas e a rede como um todo. O Caleidoscópio tem sido objeto de estudos de nossos alunos e de outras unidades da Unicamp, relacionadas à ciência da computação e está crescendo como proposta e abrindo canais de participação com a comunidade e com outras instituições que se propõe a participar do movimento inclusivo, dentro e fora das escolas.

Se pretendemos mudanças nas práticas de sala de aula não podemos continuar formando e aperfeiçoando os professores como se as inovações só se referissem à aprendizagem dos alunos da educação infantil, da escola fundamental e do ensino médio… 

AS PERSPECTIVAS

A escola para a maioria das crianças brasileiras é o único espaço de acesso aos conhecimentos universais e sistematizados, ou seja, é o lugar que vai lhes proporcionar condições de se desenvolver e de se tornar um cidadão, alguém com identidade social e cultural.

Melhorar as condições da escola é formar gerações mais preparadas para viver a vida na sua plenitude, livremente, sem preconceitos, sem barreiras. Não podemos nos contradizer nem mesmo contemporizar soluções, mesmo que o preço que tenhamos de pagar seja bem alto, pois nunca será tão alto quanto o resgate de uma vida escolar marginalizada, uma evasão, uma criança estigmatizada, sem motivos.

A escola prepara o futuro e de certo que se as crianças conviverem e aprenderem a valorizar a diversidade nas suas salas de aula, serão adultos bem diferentes de nós, que temos de nos empenhar tanto para defender o indefensável.

A inclusão escolar remete a escola a questões de estrutura e de funcionamento que subvertem seus paradigmas e que implicam em um redimensionamento de seu papel, para um mundo que evolui a “bytes”.

O movimento inclusivo, nas escolas, por mais que seja ainda muito contestado, pelo caráter ameaçador de toda e qualquer mudança, especialmente no meio educacional, é irreversível e convence a todos pela sua lógica, pela ética de seu posicionamento social.

A inclusão está denunciando o abismo existente entre o velho e o novo na instituição escolar brasileira. A inclusão é reveladora dessa distância que precisa ser preenchida com as ações que relacionamos anteriormente.

Assim sendo, o futuro da escola inclusiva está, a nosso ver, dependendo de uma expansão rápida dos projetos verdadeiramente imbuídos do compromisso de transformar a escola, para se adequar aos novos tempos.

Se hoje ainda são experiências locais, as que estão demonstrando a viabilidade da inclusão, em escolas e redes de ensino brasileiras, estas experiências têm a força do óbvio e a clareza da simplicidade e só essas virtudes são suficientes para se antever o crescimento desse novo paradigma no sistema educacional.

Não se muda a escola com um passe de mágica.

A implementação da escola de qualidade, que é igualitária, justa e acolhedora para todos, é um sonho possível.

A aparente fragilidade das pequenas iniciativas, ou seja, essas experiências locais têm sido suficientes para enfrentar o poder da máquina educacional, velha e enferrujada, com segurança e tranquilidade. Essas iniciativas têm mostrado a viabilidade da inclusão escolar nas escolas brasileiras.

As perspectivas do ensino inclusivo são, pois, animadoras e alentadoras para a nossa educação. A escola é do povo, de todas as crianças, de suas famílias, da comunidade em que se inserem.

Crianças, bem-vindas a uma nova escola! 

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Quer ler mais? Passe por aqui também:

http://portal.mec.gov.br/seesp/arquivos/pdf/aescola.pdf

http://agenciabrasil.ebc.com.br/educacao/noticia/2016-04/escola-nao-e-um-edificio-sao-pessoas-diz-idealizador-da-escola-da-ponte

http://instituto.politeia.org.br/Os+direitos+e+deveres+da+escola+inclusiva

http://novaescola.org.br/formacao/jose-pacheco-escola-ponte-479055.shtml